Imagem poética

as palavras foram esquecidas pelo chão. ninguém teve o vagar, o espaço, o tempo de lhes dar melhor destino do que o papelão. foram descuidadamente pousadas no chão, onde mijam os cães, onde rasteja o sol e a chuva. alguém depositou ali aquele pedaço de passado. penso que talvez o objectivo fosse apagar a sombra daquelas cartas escritas à mão com letra minuciosa, papel dobrado em três – segredo escancarado na luz do dia. uma imagem poética que me persegue o passo: que falarão aquelas cartas? que história contam? quem as protagoniza? também pensei: o que é lixo e o que não é lixo? ganhei vontade de visitar o meu espólio de cartas. como reagiria? será que as despacharia aproveitando o sopro do vento? ou deixá-las onde estão, no pó do passado?
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Uma horta no metro. Uma vida.

Uma horta entrou na minha viagem de metro no último fim-de-semana. Uma horta de hortaliça, nabos, cenouras, batatas.

Todos os legumes enfiados num  saco reciclável mas a espreitar cá para fora, curiosos, a respirar. Quem os transportava era uma senhora de cara gasta pelo tempo. Adivinho que o marido já terá partido.

A mulher arranja lugar para ela e para a horta ambulante. Imagino a vida dela:

o dia a desmascarar-lhe a cara, o pão seco que come ao pequeno-almoço, as migalhas que ficam na mesa, enquanto faz a cama, varre o pátio, amanha o peixe do almoço. vai longe buscar os legumes para a sopa, onde ninguém a  conhece. assim, pode instalar-se num banco à porta de casa e vender os legumes que sobram. assim, pode comprar o pão do dia seguinte, amanhar o peixe da próxima refeição. 

Imagino:

tem três filhos. um nos estados unidos, outro em lisboa e outro que se esqueceu de onde veio. de vez em vez recebe um ou outro telefonema dos filhos. dá duas de letra com a vizinha da porta ao lado. toma café para esfregar menos o olho, e só lava duas vezes o cabelo por semana. 

Continuo:

tem muita tralha de roupa no único quarto de casa, mas usa sempre a mesma camisola de malha preta, já com um buraco, cosido todas as vezes que quer falar. recebe cartas: da luz e da água. e à noite encosta o olho à televisão enquanto sorve a sopa quente. e todas as vezes que se arrasta até à cama solta um ai. não para se lamentar, mas para se fazer ouvir. 

Parei de imaginar. Tenho a sensação de estar a tocar a verdade.

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‘Bom passeio a Fátima’

Onde deixaram as vossas crianças hoje? Puseram-nas em peregrinação até ao santuário de Fátima? Ficaram com avós que se predispõem a tudo? Faltaram ao trabalho (no privado, claro)?

Ontem as funcionárias da escola pública alongavam um sorriso de lés a lés na cara.

‘Então, bom passeio a Fátima’, ironizavam algumas mães.

‘Não podemos negar o que nos dão’, justificava a funcionária. Com razão.

Eu ainda tive a ideia de deixar a minha criança às portas da calçada da Ajuda em Lisboa, mas ainda assim Fátima é mais perto. Ou na residência do Primeiro-Ministro, mas a debandada não ficava à mão.

Aproveitando o entusiasmo de Assunção Cristas: que tal uma estação de metro até Fátima?

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O sol pinga nas janelas sujas do metro

O sol pinga nas janelas sujas do metro. É Páscoa deviam esfregar isto tudo. Vai a bailar a empregada de limpeza com o balde numa mão e a esfregona na outra, agarrada ao varão, e os olhos agarrados ao vidro fosco em jeito de pegada de um inverno que passou. É Páscoa deviam esfregar isto tudo. Reitera a mulher com o olhar escorrido e o profissionalismo que lhe foi ensinado desde sempre e para sempre. Fala alto à espera de consentimento por parte de quem não entende de vidros foscos, e quem anseia apenas pelo feriado, que é o que a Páscoa tem a ver e não É Páscoa deviam esfregar isto tudo.

Quem tem o coração perto da boca faz dos outros ouvidos-moucos.

Ela bate na mesma tecla. E o resto dos passageiros à procura de significado naquelas palavras, nada dizem. Isso ou apenas falta de coragem. Quem tem o coração perto da boca faz dos outros ouvidos-moucos.

É Páscoa e os vidros caminham foscos. À espera que alguém se dê conta da necessidade de Renascimento em dias tão adormecidos.

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A cusquice dos olhos no jornal do vizinho

Gosto muito da cusquice dos olhos no livro, jornal, telemóvel ou computador do vizinho do lado.

É inevitável. Sentámo-nos e se o vizinho do lado estiver agarrado a qualquer um daqueles objetos, os nosso olhos ganham personalidade coscuvilheira. Curiosidade, interesse, cusquice? Não sei. Se enfiámos as mãos no colo, se o lado da janela está ocupado, para onde se dirigem os olhos? Para aquela página do jornal que contornamos até poder ler o título todo, numa espécie de coreografia que ganha velocidade à medida que a pessoa na posse do jornal se apercebe, e faz de tudo para nos dificultar a tarefa.

E nós versus eles, enterramos ainda mais os olhos, ao desafio, e neste ponto, de um zás brusco, pumbas, o vizinho muda a página, a mostrar mau génio. Pior: fecha-o, guarda-o. Como quem diz: este jornal é todo meu, se quiseres compra o teu.

Se enfiámos as mãos no colo, se o lado da janela está ocupado, para onde se dirigem os olhos? Para aquela página do jornal que contornamos até poder ler o título todo, numa espécie de coreografia que ganha velocidade à medida que a pessoa na posse do jornal se apercebe, e faz de tudo para nos dificultar a tarefa.

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Da alegria

Se queres ser alegre, faz uma viagem de metro. A senhora do lado muito espevitada, sorri de uma orelha á outra. Tem uma amiga que condiz com a alegria dela. É impossível dormir na primeira hora do dia, no aconchego do banco no metro.

o que é preciso é alegria e força no pau

O quê? Parou tudo!
Acordámos todos, assim, em sobressalto. Aquilo não foi uma frase, foi um comprimido esctasy no ouvido. Pow. Logo de manhã, quando ainda estamos como os gatos a lamber os olhos. Espero encontrá-las novamente. Porque gente boa sorri. E faz sorrir.

 

alegria
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dia internacional do ser humano

A semana passada assistimos ao triste episódio de um eurodeputado dizer no Parlamento Europeu que as mulheres devem ganhar menos, uma vez que “são mais frágeis e menos inteligentes”. isto, foi dia 2 de Março de 2017. 2017.

Hoje, no dia internacional da Mulher, querido, envio-te estas palavras, para que aprendas, embrulhes e te lembres sempre:

Fixa estes grandes nomes de feministas, mulheres, pessoas, seres humanos que fazem de ti um nojo:

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No desgaste do dia

Há uma pequena que me fita o olho já no desgaste do dia. Será que me tenta adivinhar os sonhos? Eu tento adivinhar os dela. Quer ser mãe e ter filhos, muitos – quando crescer. Depois quer ser médica, ao mesmo tempo de cantora, claro. Quer correr o mundo com o apaixonado, as amigas, e os filhos. Quer crescer e ver os pais sempre no mesmo lugar – nem mais novos, nem mais velhos.

Possivelmente, a garota de fita à roda da cabeça já me acha crescida o suficiente para ter todos os sonhos dela e mais alguns. Conto-lhe a verdade? Que a vida é longa, mas também curta para somar sonhos. Todos, pelo menos. Que um ou outro andaram perto, que um se realizou que até parece mentira, e uns quantos andam aos caídos em agendas, em pontos de ‘cheklist’ à espera de visto de concretização? Que existe tanta coisa fora do nosso controlo que sabemos na realidade da idade que não vão sair do papel?

Esta realidade  que contrasta com a inocência dos olhos da menina que me fita…já no desgaste do dia…a contrastar com o desgaste dos anos.

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O som que o metro faz ao chegar

O Porto foi considerado, uma vez mais, o melhor destino europeu, e o sol regressou ao céu, em esplendor. A acompanhar a farra destes dias que eleva o sentimento tripeiro assiste-se à mudança de humor nas pessoas que levam a vida pelo metro. Se antes, em tempo de chuva, as caras acabrunhadas passeavam-se em silêncio; hoje as portas do metro rangem novamente. Assim como, penso, os versos da Ana Luísa Amaral. ‘O som que os versos fazem ao abrir’, escreve a poeta. Quer-me parecer que o som será idêntico, de felicidade pardacenta. Como o Porto. Sempre na sombra de um sol deslumbrante, ‘a moer um sentimento’. Não é assim?

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Os rostos cansados pelo metro

As caras estão gastas e logo de manhã. Maquilhagem forçada nas mulheres que acordam cedo-ainda-antes-do-cedo com este propósito. Homens com olhos ainda arrepiados com a primeira água do dia. O que faz isto a estes rostos sem cor? O tempo sem tempo? A correria a enganar o tempo até ao metro?

Pessoas que falam com auscultadores, que não respondem a bons-dias, que negam cada olhar.

Sentam-se como se a carruagem estivesse sem gente. Como se fossem eles toda a gente, ali e no mundo.

Sem olhar o lugar do lado. Onde está o outro.

De manhã sentam-se com rostos que rejeitam outros rostos –

que rejeitam os já rejeitados.

Manhãs limpas em rostos sujos.

Por isso gostava de te dizer, coloca um tempero a condizer com a tua manhã. Para que ela caia em graça no prolongar da tua alvorada.

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