O fogo que apagou vidas e não se deixa apagar

Há metros de histórias mais felizes do que outros, e eu prefiro sempre contar aquelas histórias que por serem de sorriso tão aberto nos levam à lágrima funda.  Hoje, venho desabafar umas palavras tristes.

Este ano Portugal viveu verdadeiros desastres florestais, fogo que apagou mais de uma centena de vidas e deu cabo do ambiente. É inacreditável que em escassos três meses o fogo ganhasse tantos hectares de território.

Em Junho defendi a ministra com a pasta com estes assuntos. Acho que a demissão não é uma solução, mas um acrescento ao problema. À primeira tragédia um ministro tem de mostrar o que vale e arregaçar as mangas. Em Pedrogão dei o benefício da dúvida de quem nos governa. Mas é negativamente estupendo como é que uma tragédia destas assola novamente um país tão pequeno como Portugal no hiato de escassos meses. A culpa não é desta ministra – diretamente abordando a questão.

As causas estão muito lá trás na falta de ordenamento do território, nos interesses industriais e mesmo políticos, da aposta em áreas imensas de eucaliptos, na falta de apoio do Estado a corporações, falta de formação, falta de investimento em postos de vigia – os especialistas vão dando dicas.

O que mais dói é a ligeireza no trato, no discurso, na falta de responsabilização. Conferências de imprensa sem humanidade nas palavras. Perderam-se vidas, uma que fosse, seria sempre trágico. E a procissão continua, e parece que nada muda. Não há evolução. São publicados relatórios onde se confirma o falhanço das autoridades máximas, o problema persiste, e nada avança, como se o povo, nós, não tivéssemos voz.

Façamo-nos ouvir.

 

 

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Dona Esperança

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Deve ser bom viver empoleirada na janela de casa. Lá em cima. De onde se vê e onde se passa facilmente despercebida. Gosto de imagens assim: uma mulher, velha, simpática, despachada, rugosa como a própria aldeia. Foi pouco tempo de diálogo, mas o suficiente para imaginar. Na rua da sua casa passam muitos caminheiros. Imaginará ela também as suas histórias?

Eu imagino-a viúva – a pista foi o preto da camisola. Rija e desconfiada – na aldeia é assim que se é. Solitária? À janela na hora do almoço a afirmar que agora ‘já só vai uma sopinha’, faz-me crer que sim. Certamente com a descendência lá fora a ganhar o pão de todos os dias e mais os dos que virão. Um ouvido na televisão e o outro no sino da igreja. Tem um nome invejável. Para ser lembrado todos os dias. Esperança – no hoje, no amanhã. Para os dias difíceis, turvos. Como estes dias de agora.

 

Elis, o Porto, o Progresso

O progresso do futuro começa, muitas vezes, lá trás no passado. O cinema antigo foi resgatado no Porto. É um exemplo em que o progresso puxou rotinas antigas da cidade.

Existem muitos filmes em exibição no cinema dos grandes centros comerciais. Mas, aproveitando o cartão tripass e ajudando à manutenção da excelente iniciativa de oferecer (novamente) os cinemas Trindade e Passos Manuel ao Porto, fomos espreitar a vida e obra da pequena grande Elis ao Trindade.

Uma estória na tela muito bem contada por Hugo Prata e um acrescento à nossa sabedoria. Almas arrojadas têm vidas tão curtas quanto intensas.

O que me trouxe a este post não é tanto o filme da Elis que merece um texto só dele, mas o progresso do café Progresso.

O filme terminou cedo, deu para uma volta no centro da cidade, a coscuvilhar o belo que a cidade se transformou – cheia de gente, logo, cheia de vida. Uma ida ao café Progresso. O nome do café antigo parece que se reflectiu no seu espaço físico.

Funcionários internacionais, a arranhar um quase português, mobília nova, máquinas novas. ‘O café de saco’ mantém-se, exorta o funcionário. ‘E o chão’, exclama ainda.

E, nós, eu e o meu marido, alucinados com tanto progresso, absolutamente desnecessário. Nada contra a empregados novos, vindos de longe, sem a pátria portuguesa na língua – eu própria trabalhei lá fora a arranhar mal outra língua; não obstante, precisaria o Progresso de tanto progresso para acompanhar a Era Moderna deste Porto que se internacionalizou? Não me parece. O Porto ganhou espaços novos, muitos, trouxe cinema antigo à cidade, ganhou nova clientela e animou a antiga clientela. Tudo fixe. Os espaços antigos que sejam fiéis a si mesmo, têm lugar cativo.

A pergunta que fica: será que num futuro próximo o passado virá arrependido para um novo Progresso?

Estudos exigem todas as respostas

 A Deco Protest publicou um estudo sobre 14 batons que contém substâncias perigosas à saúde. A NiT divulgou e noticiou o assunto. Eis aqui a notícia e a lista para consulta do que se deve ou não comprar. Até aqui tudo bem.

O artigo está bem escrito, o tema é importante, merece ser publicado. No entanto, carece de resposta em pontos essenciais para o público, e sobretudo, para não alarmar consumidores.

 Faltam respostas às perguntas: o que diz o Infarmed? Por que razão as farmácias têm à venda os produtos referenciados? O que acontece noutros pontos do mundo, pois são visadas marcas internacionais?

A grande pergunta que fica no ar é o propósito deste tipo de estudo, e a ligeireza com que temas destes são tratados. Se está em causa a saúde pública, estas investigações deveriam estar bem fundamentadas com informações cruzadas de várias fontes.

Há credibilidade nos estudos da Deco Protest? Sim, mas como é possível, nestes tempos que correm, com tantas entidades de vigilância entrar no mercado produtos infestados de mal? Mais uma pergunta por responder!

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EVERY GIRL

Every Girl é o nome de um futuro livro e também um movimento internacional que pretende abraçar todos – mulheres, homens, meninas e meninos. No Every Girl são contadas histórias da infância de mulheres de todos os países. Sim, isso mesmo, de todo o mundo!

A ideia é aconchegar culturas, aproximar histórias e partilhas de pessoas diferentes, mas iguais.

A ideia partiu de uma menina do mundo chamada Claire Read. Já conta com inúmeras ajudas e voluntários que acreditam que através de histórias contadas às crianças sobre as diferenças culturais de cada país, essas diversidades enraízam-se do modo mais positivo.

Aliado a esta ideia genial e bestial está um acto solidário: 25% dos lucros do Every Girl vão para a www.salamuk.org, uma associação de apoio a refugiados, que dá voz à fragilidade das crianças e se preocupa com o empoderamento feminino.

Vamos ajudar? Visitem: https://www.iameverygirl.org/about

E CONTRIBUAM!

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ÚLTIMA HORA

Breaking news. Por norma nunca é bom prenúncio. E só temos duas formas de reagir. Ou esmiuçamos até ao osso a notícia ou enfiamos uma música dentro da cabeça. Daquelas que brilham cá dentro como uma estrela a cantar. Basta fechar os olhos, e esquecer, um instante o mundo. Tirar uma folga para fazer parar as tragédias que se exibem pelo dia.

Há um novo fenómeno: há 10 anos havia uma tragédia de vez em vez, contrariando o velho ditado ‘um mal nunca vem só’. Por estes dias, anos, as tragédias largam sementes: é a chamada supremacia branca a espalhar ódio pelas ruas nos EUA; árvores que caem na Madeira, os incêndios que rastejam sonsos em todo o lado, carros que se atiram aleatoriamente para cima de pessoas que estão a viver.

As notícias de última hora abundam e correm e não se aprofunda nenhum assunto.

Onde estão as soluções? Onde estão especialistas? Técnicos?

Vejo mais os chamados opinion makers. Num Estado democrático as opiniões são válidas, e sobretudo, necessárias.

Mas o mundo precisa de um exército de soluções para combater estas maldades que invadem a nossa casa. Caso contrário, corremos o risco da maldade ganhar raízes e ficar na sombra da paz.

‘É urgente o amor.’

 

 

O pedido

Todos os dias há um pedido. Uma cara anónima que encontra no meu olhar o conforto suficiente para pedir o pão, uma moeda, as fraldas do bebé, uma sopa. Primeiro desconfiamos, julgamos o aspeto, o cheiro, se fala verdade, se fala mentira. Ficamos perdidos a boiar na mente escura: ‘ajudo, não ajudo’.’ Onde estão os que devem ajudar, o Estado?’ Depois chega a filosofia, a consciência:’ amanhã posso ser eu, posso precisar de ajuda’. Quem disse: um homem só deve levar a mão a outro se for para ajudar?

Sempre um pedido. Uma moeda que se pede. Uma mão que se estende. Na rua. No metro. Hoje essa mão veio de um senhor de idade para lá dos 60 anos. Homem asseado, eloquente, cabelo branco, pele limpa. Mas. Mas com os olhos envidraçados, a brilhar, a estender a mão, à procura de uma moeda que o ajudasse. Que o salvasse. Porque ‘era o comer, era a botija de gás’.

Da boca saíram-lhe um rol de males. Que vem desde trás. ‘O divórcio, o diabetes, os ossos, a construção civil, amputação dos dedos, o comer que tinha que ser especial – os diabetes’, dizia.

Dizia ainda: ‘a reforma por invalidez que chegou tarde, o dinheiro da reforma por invalidez que demora a chegar’.

A Segurança Social? ‘Meteram-me numa instituição para toxicodependentes. Não me adaptei aquele ambiente, pedia à doutora para me tirar de lá, estava a ficar com a saúde pior. É melhor a garagem de um amigo’.

O centro de Saúde? ‘Gasto muito em medicação’. Passo dias nos hospitais’.

Sou uma centelha. Não passo disto no mundo. Podia fazer mais, mas também podia fazer menos. Não fui em nenhuma missão, não faço parte do grupo de corajosos que dão a vida na Síria para resgatar inocentes ao Daesh. Sou pequena, por isso, decidi meter-me nesta missão invisível e pequena de responder aos pedidos. Para sim ou para não. Mas responder. À minha proporção.