Dos livros

Na carruagem do metro que eu escolho vão sempre pessoas com livros como se fossem filhos. Os livros sentam-se no colo, a pessoa está ali mas não está ali. É aqui que a minha curiosidade extravasa. Seja homem ou mulher, agarra o livro como se alguém fosse agente de execução e penhorasse o livro. Agarram com força o livro nas mãos, encostam-no à cara como se se tivessem esquecido os óculos em casa, e sempre que algum olho alheio tenta perceber o título ou o autor, o livro, na carruagem como troféu, é imediatamente escondido entre os braços. ‘tu põe-te fina, tu nem tentes pegar no livro, tu não olhas o meu livro, o livro é só meu’. É um gesto mimado. Escrevia eu que as pessoas que lêem no metro não sabem que estão no metro. Navegam. Viajam – dentro de si mesmas. Tornam-se outras – nos breves minutos que a viagem do metro dura – as mesmas linhas de uma história qualquer fechada entre duas capas – as pessoas que trazem ao colo um livro não tiraram o andante, mas sim um bilhete além da minha carruagem.

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