ser humano, mulher, Media, feminismo

Hoje na RTP 2 pela 23:41 será exibido um documentário de José Carlos de Oliveira sobre as vozes femininas na comunicação social portuguesa: “Falar no Feminino – A Informação no Feminino”.

É sempre pertinente falar sobre a voz da mulher no jornalismo, na sociedade. Justamente numa altura em passam três meses do brutal homicídio da jornalista freelance sueca Kim Wall em exercício da profissão. Numa altura em que saem acórdãos de juízes que citam a bíblia para atenuar penas de violação doméstica e apontam o dedo moral a mulheres adúlteras, cito. Numa altura em que chovem denúncias de assédio sexual no mundo do trabalho, particularmente contra mulheres.

Por muito que o mundo avance parece que a igualdade, o respeito, a educação e a cultura de uma sociedade adormecem. Por isso, é bom levantar a voz, e feminina, para não esquecer. Lembrar que as Constituições mudaram, os sutiãs foram queimados, mulheres mortas e feridas e que houve quem atirasse por nós para conquistar a liberdade. É preciso faltar à educação e levantar a voz, em grito, para recordar aqueles valores e princípios.

Não há dia que não me venha à memória o nome Kim Wall. Os amigos e família organizaram um fundo para lembrar a jornalista assassinada  – www.rememberingkimwall.com. O memorial online pretende não só relembrar a jornalista, mas também recolher doações monetárias a fim de ajudar jornalistas, mulheres independentes, freelance a manter uma carreira digna e segura.

Como é possível depois de séculos de batalhas, em pleno século XXI, se desempenhe uma profissão tão libertadora de forma tão insegura? Como é possível tanta coisa?

 

 

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alegria, ser humano

Retirei-me em retiro

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Vivi uma experiência limpa.

Retirei-me para viver um retiro.

Retirei-me do bulício. Retirei-me dos dias.

Meti-me noutros dias. Esvaziei a pele suada de todos os dias.

Abeirei-me do silêncio. Vesti a estranheza.

Respirei sabedoria do outro mundo.

Percorri o som das folhas pelo chão.

De olhos fechados, com as mãos abertas e o corpo em movimento.

A mente reforçou a consciência. A consciência reforçou a mente.

A gratidão permaneceu na mansidão de acreditar que nada é permanente.

Sentidos em movimento. Meditação que me leva os pensamentos.

 

 

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Sem categoria

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Gosto muito de deduzir histórias sobre as imagens que vejo, fotografo. Como escreveu Roland Barthes na sua Câmara Clara:”O que a fotografia reproduz ao infinito só ocorreu uma vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente”.  É como todos aqueles objectos encarcerados num antiquário. Já passaram do tempo deles, mas ficaram. Parecem pedinchar por uma segunda oportunidade. Que estórias contarão estas coisas encafuadas numa loja da baixa do Porto? Quem as procurará? Por que estarão elas ali?

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feminismo, mulher, ser humano

Indignação sobre o acórdão machista

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Fomos surpreendidos pelo acórdão de um juiz do Tribunal da Relação do Porto que iliba um homem de violência doméstica, justificada pelo adultério da mulher. Lê-se no processo: “O adultério da mulher é uma tentado à honra e dignidade do homem”. O tribunal considera “compreensível” a violência por parte do homem que foi “vexado” e “humilhado” pela mulher adúltera. Mais: o juiz vai buscar a punição moral descrita na Bíblia para pregar o seu ralhete à mulher vítima de violência doméstica.

A indignação é geral e a UMAR – União das Mulheres Alternativa e Resposta – não perdeu tempo a culpabilizar juristas responsáveis pelas vidas das pessoas que por serem retrógradas e moralistas contribuem para a evolução negativa das sociedades.

Tudo naquele documento do tribunal é aberrante: culpabilizar a mulher adúltera, justificar a violência, ir buscar o moralismo da Bíblia e o Código Penal de 1886.

Quando pensámos que ultrapassámos as piores atrocidades do mundo feminino, ainda é preciso ser ainda mais feminista, elevar mais a voz, porque, o machado está lá, pronto a ser utilizado, por qualquer um, pior: por aquele que deveria proteger e não julgar ao desproteger.

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criança, pessoas&crianças, ser humano

su(de)ficiente

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Termina hoje a celebração da semana de alimentação saudável na escola da minha filha, a Maria Rita (na foto). O objectivo além de promover a alimentação saudável era angariar fundos para desenvolver e apetrechar a sala do ensino especial.

A Rita manifesta muito interesse em ajudar, dar a mão aos meninos que fazem parte deste ensino especial e que merecem ‘especial’ atenção. Eu fico feliz com as iniciativas dela.

Não deixo de corrigir sempre que ela diz, como a escola ensina: “hoje ajudei o menino especial. Especial somos todos, insisto. Penso que devemos tratar ‘os bois pelos nomes’. Se existe uma incapacidade, uma insuficiência, dizemos deficiente.

A Rita deixou o especial para lá, e agora diz: os meninos suficientes. É mesmo isso, suficientes. Aqui fui incapaz de corrigir. Somos suficientes na nossa condição.

Como diria Clarice Lispector num verso: E se me achar esquisita,
respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.

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alegria, ser humano

Trilho do Tibete

Descobri que nos Arcos de Valdevez os percursos pedestres são chamados de pequenos trilhos do Tibete. Nada é por acaso. O lugar verde, os caminhos de tapete castanho, assim, como está na fotografia, chama à meditação – ao âmago Buda da tradição tibetana. À respiração funda. Ao caminho interior do conhecimento. Na frescura daquele caminhar veio-me à memória o Siddhartha  e as suas palavras mágicas: “Quem me dera olhar, sorrir, caminhar, manter-me sentado à sua maneira, com esse quê de liberdade, de dignidade, de discrição, de ingenuidade, de franqueza e de mistério! Realmente, assim só pode olhar e caminhar quem tiver penetrado no âmago de sua personalidade. Pois então, também eu me empenharei em penetrar no âmago de minha alma.”22519099_10159483996180187_3361153976657365916_n

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ser humano, solidariedade

O fogo que apagou vidas e não se deixa apagar

Há metros de histórias mais felizes do que outros, e eu prefiro sempre contar aquelas histórias que por serem de sorriso tão aberto nos levam à lágrima funda.  Hoje, venho desabafar umas palavras tristes.

Este ano Portugal viveu verdadeiros desastres florestais, fogo que apagou mais de uma centena de vidas e deu cabo do ambiente. É inacreditável que em escassos três meses o fogo ganhasse tantos hectares de território.

Em Junho defendi a ministra com a pasta com estes assuntos. Acho que a demissão não é uma solução, mas um acrescento ao problema. À primeira tragédia um ministro tem de mostrar o que vale e arregaçar as mangas. Em Pedrogão dei o benefício da dúvida de quem nos governa. Mas é negativamente estupendo como é que uma tragédia destas assola novamente um país tão pequeno como Portugal no hiato de escassos meses. A culpa não é desta ministra – diretamente abordando a questão.

As causas estão muito lá trás na falta de ordenamento do território, nos interesses industriais e mesmo políticos, da aposta em áreas imensas de eucaliptos, na falta de apoio do Estado a corporações, falta de formação, falta de investimento em postos de vigia – os especialistas vão dando dicas.

O que mais dói é a ligeireza no trato, no discurso, na falta de responsabilização. Conferências de imprensa sem humanidade nas palavras. Perderam-se vidas, uma que fosse, seria sempre trágico. E a procissão continua, e parece que nada muda. Não há evolução. São publicados relatórios onde se confirma o falhanço das autoridades máximas, o problema persiste, e nada avança, como se o povo, nós, não tivéssemos voz.

Façamo-nos ouvir.

 

 

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