Frio, ser humano

A solidão é a perfeita companheira da morte

A solidão é a perfeita companheira da morte. Um homem, português, novo, talentoso, longe do aconchego da cultura, da família, dos amigos; morre só, ao frio, lá longe, na terra desprovida do adusto da vida – Londres.

Em 2018, às portas do parlamento britânico, um emigrante português, um ser humano, perdeu a vida na própria casa. Era sem-abrigo, a sua casa era a estação de metro de Westminster. É uma casa sem cozinha, sem sala, sem quarto, sem casa de banho. Com muita gente a passar. Só a passar, sem ver. Muita gente, demasiada gente, que passa e não olha, que passa e não vê, que passa e não repara.

A nossa Humanidade diminui, sentimo-nos pequenos, impotentes. A conversa regressa ao princípio, regressa à mesma pergunta: onde é que estamos a falhar? Com os políticos, os primeiros, supostamente a ter que dar o exemplo, os últimos a agir. Jeremy Corbyn, líder do partido Trabalhista inglês, surge a lamentar que os deputados nada puderam fazer, e a varrer o assunto com flores para dentro da estação, onde morreu uma pessoa, sozinha, à procura de trabalho, ao frio, numa cidade gigante, com tanta a gente a passar e a não ver, a não olhar, a não reparar.

Até quando? De acordo com associações e amigos este sem-abrigo, português, estava inscrito no centro de emprego, à procura de trabalho, já tinha trabalhado, perdeu o trabalho. Ficou a zero perante o empreendimento que é a vida.

Até quando?

Onde estamos a falhar?

Os governantes, os responsáveis máximos são obrigados a responderem a estas perguntas. A fazer mais. A não varrer flores para onde quer que seja. Estão obrigados pôr em prática ações para dar vida à vida de todos os cidadãos.

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chuva, Frio

Do frio

Gente embarretada enfia-se trapalhona na carruagem do metro à procura do ar quentinho como quem rasga gente à procura de amor. Lá fora um frio, uma chuva, nomes feios – tudo seguido de adjetivos feios. Os sorrisos descongelam e as mãos despidas de luvas já vão aos telemóveis. Uma senhora aproveita o quente virico para consolar o corpo. ‘a minha casa é gelada como um frigorífico’. ‘e aqui é quente como um forno’. Pensamento em coro. Se pudéssemos prosseguiamos no metro até onde as janelas já não suassem.

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