Literatura, livros, mulher

Duas histórias de amor deliram no mesmo livro

Hoje escrevo sobre Emily L. de Marguerite Duras. Segundo li, determina a crítica que este é o melhor romance de Duras. Isso não sei. Não lhe conheço outro. Mas, este por si só vale bem a pena cansar a vista.

No mesmo livro, a escritora francesa encaixa duas histórias de amor que arrulham dúvidas, incertezas, ciúmes.

Emily-L

A história centra-se em dois casais bastante distintos. O casal narrador, cujo romance se encontra já no final assolado pelo ruído da incerteza, que observa encostado num café da Normandia um casal já idoso de ingleses, que apesar da vida, ainda se amam. Talvez não se amem como no início, mas sabem que se amam. Com as suas limitações e diferenças, foram atravessando a vida, sem enfatizar a incerteza, apesar da mutação do amor, ou da própria metamorfose.

1988, ano de publicação da história dentro da história. O casal vai recordando o que foi a vida em conjunto, tentando adivinhar inventando-imaginando o que foi/o que é a vida do outro casal, roendo-lhe a imagem.

No acervo das páginas do livro palavras gastas de uma carta passada com a dor do passado a confessar um golpe no amor:

“Esqueci as palavras adequadas. Sabia-as e esqueci-as, e aqui falo-lhe com o esquecimento dessas palavras. Contrariamente a todas as aparências, eu não sou mulher que se entregue de corpo e alma ao amor de uma só pessoa, mesmo que ela fosse o ser mais adorado da sua vida. Sou uma pessoa infiel. Bem gostaria de reencontrar as palavras que tinha reservado para lhe dizer isto. Eis que relembro algumas delas. Queria dizer-lhe aquilo em que eu creio, é que seria preciso conservar sempre adiante de nós, aqui está, reencontro a palavra, um lugar, uma espécie de lugar pessoal, é isso, para nele estar só e para amar. Para amar não se sabe o quê, nem quem, nem como, nem por quanto tempo. Para amar, eis que todas as palavras me voltam à memória, de repente…para conservarmos o lugar de uma espera, nunca se sabe, da espera de um amor, de um amor sem ninguém ainda, talvez, mas disso e só disso, do amor. (…)”

Este é uma espécie de poema-romance onde – dizem – a autora conta a história da própria Duras, dela própria, onde se desvenda numas das personagens. Restando ao leitor tentar acertar qual das personagens ela é. Não é fácil. Há um código de metáforas que nos atira borda fora.

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Literatura, livros

O farol de Virginia Woolf

Hoje escrevo sobre o livro “Rumo ao Farol” de Virginia Woolf. A tramada autora inglesa transforma o realismo do romance tradicional e propõe uma nova perspectiva de romance (ou a destruição dele) em que há uma fusão do próprio espaço com o espaço interior do personagem. O tempo atravessa pensamentos e emoções individuais e as suas reações ao mundo são mais fortes e mais importantes que desenrolar de factos na narrativa. “Rumo ao Farol” faz largo uso do fluxo de consciência: a escrita tenta reproduzir o processo de articulação do pensamento individual. Mas mais que uma inovação formal, isso transforma a compreensão e a interpretação da obra. A Sra. Ramsay levanta a cabeça e olha para o seu marido, e deste olhar desperta sentimentos e julgamentos que até então estavam escondidos, até para ela mesma. Isto faz tudo muito ambíguo, logo os factos transformam-se em grandes acontecimentos, onde tudo muda. Então, o romance que nem aparenta ter história a ser contada, apresenta um clímax terrível e uma catarse profunda.

O livro desdobra-se em três partes: A janela, onde se concentram “os factos” até o momento do jantar; O tempo passa, onde as personagens quase não aparecem, é praticamente uma parte do espaço e o este é o personagem principal dessa parte. É por meio do espaço que se mostra a passagem do tempo e a transformação do mundo devido à Guerra. E por fim, Ao farol, comportando a cena de volta dos personagens ao farol anos depois. O tempo passa é bem distinto das outras duas partes e também bem mais curto, contudo é a parte do meio, porque sucinta a ideia central de ruína que o romance transmite, ruína das relações familiares e amorosas previamente postas, dos valores do século anterior, de uma ideia de honra, progresso e coragem e do próprio conceito de indivíduo que havia sido construído pela ideologia burguesa ao longo do século XIX. Assim como o modelo calcificado de romance é destruído no âmbito da forma, o conteúdo da obra traz como a Guerra destruiu muito do que havia nas sociedades europeias até então.

Além de incrível pelas possibilidades de compreensões que apresenta, o livro é lindo de  ler e provoca um prazer estético singular. As descrições da praia, das ondas, do farol, do espaço da casa na velhice e em ruína e do próprio quadro que está a ser pintado por Lily Briscoe são de uma delicadeza e sensibilidade agudas que entram no interior dos próprios personagens e por fim do próprio leitor. Obviamente não se trata de uma leitura super fácil, mas ela mobiliza, no palco da mente do leitor, cores e sensações belíssimas e complexas. A personagem, o espaço e o leitor misturam e perdem as suas fronteiras.

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Literatura, livros

Correntes d’Escrita e a pintura de Bosch

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O músico, ilustrador e escritor português Afonso Cruz levou na passada sexta-feira o pintor Bosch à sua mesa (número 5) no Correntes d’Escrita. O mote para a conversa estava no programa: ‘O que escrevo atormenta o que sou’. No painel estavam presentes a escritora cubana Karla Suarez, os portugueses João Tordo, Sandro William Junqueira e Lopito Feijóo em representação do escritor angolano Helder Simbad, que por “razões burocráticas” não pode estar presente na 19ª edição do certame literário, na Póvoa de Varzim.

Afonso Cruz contraria a ideia da dor no ato de escrever. “Adoro escrever, tenho prazer em escrever e se não tivesse não escreveria, o que não quer dizer que por vezes não me magoe”, confessa o escritor, passando a sua palavra a uma mostra de slides, em que analisa uma pintura do pintor holandês do século XV. No quadro surge a figura de Jesus Cristo rodeado de dois homens a ampará-lo. Um destes homens tem no chapéu uma folha de carvalho. Afonso Cruz compara o desenho do carvalho à forma do cerebelo humano e conclui, perguntando: “Será que Deus na verdade está a dizer-nos que está na cabeça e é nela que reside o nosso sofrimento?”.

O laureado com o prémio da União Europeia para a Literatura deu exemplos de escritores que partilharam dores literárias, como Flaubert que tomava as dores da sua conhecida personagem Madame Bovary.

Já João Tordo, escritor que venceu o prémio Saramago em 2009, partilhou com o público que encontrou refúgio na escrita para evitar a comunicação oral, “dificil” para a sua “gaguez”. O escritor português mostrou uma série de histórias sobre monstros e BD’s que escreveu quando tinha apenas sete anos. A ideia era demonstrar como “nasceu” para o escritor “a literatura”.

Karla Suarez leu um longo texto na sua língua mãe e explicou que “escrever é um verdadeiro ato de exorcismo”, cujo final é atingir o leitor, ou “o leitor acaba por ser os próprios olhos”.

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criança, Literatura, livros, ser humano, solidariedade

‘que luz estarias a ler?’

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Que luz estarias a ler? é um livro escrito por João Pedro Mésseder e ilustrado por Ana Biscaia. É um conto real para adultos e crianças. Eu li à minha filha de 6 anos. No fim pedi-lhe que sempre que tivesse uma reclamação a fazer pensasse no nome Aysha.

Ia o mês sete e oito de 2014 quando as bombas israelitas mataram crianças palestinianas numa escola na faixa de Gaza. A história pela pena de Mésseder e o olhar do desenho da Ana Biscaia conta este momento trágico na frágil história da Humanidade.

Aysha uma menina palestiniana que via nos livros uma luz que a distraia no som da sirenes, das bombas, dos humanos aflitos. Ela e os amigos liam histórias, aliviavam o sofrimento em páginas de livros da escola. Naquele dia em que a escola de Aysha foi bombardeada, a menina perdeu o melhor amigo, Kalil.

Aysha pergunta ‘que luz estarias a ler?’ quando o amigo Kalil perdeu a vida no meio de uma batalha de governantes.

Há aqui uma metáfora entre a literatura e a realidade das coisas. Para quem ainda se pergunta para que servem os livros, respondo: para isto mesmo, uma luz que nos distrai da sombra dos dias.

A cada reclamação, um nome: Aysha.

 

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feminismo, Literatura, livros, mulher

“Ora, o leitor sabe muito bem que eu nunca tinha feito nenhuma promessa formal nem assumido compromissos”. O ténue feminismo de Bronte em 1847.

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Charlotte Bronte escreveu A Paixão de Jane Eyre em 1847. Foi o seu primeiro romance, adaptado diversas vezes ao grande e ao pequeno ecran. É uma obra esplêndida, um livro muito bem escrito, onde as palavras trazem imagens a ilustrar cada página.

Fiquei fascinada com o estilo vitoriano que não destoa nos dias de hoje. Uma cadência natural da história, e sobretudo, um feminismo à época pouco usual mas que está aligeirado em algumas linhas.

Jane uma mulher feia, maltratada na infância que soube colocar a vida nos trilhos que ela própria comanda. Dura nas suas opiniões e fiel ao seu espírito, mulher que foge de dependências e constrói a independência. É uma mulher insubmissa – o que acho admirável à época; descrever-se e escrever-se linhas com tais características numa mulher. Não sei se na ocasião se se chamaria feminismo, mas hoje, Jane poderia bem ser uma feminista a lutar pela igualdade de género.

O estilo vitoriano descobre-se não só pela época em que foi escrito o romance, mas na abordagem que a escritora faz ao leitor. Frequentemente dirige-se à audiência como se estivesse a contar a história num palco de teatro: caro leitor, o leitor sabe, etc. Isto aproxima sem dúvida o relato do leitor.

É uma espécie de conto de fadas. O relato é feito na primeira pessoa. A infância da personagem principal, Jane Eyre, é dura. Gata borralheira numa casa de madrastas. Logo, a vida encarreira Jane ao destino de Thornfield Hall onde conhece o seu príncipe encantado, Mr. Rochester, que igualmente feio, e mais velho vivem uma história a quebrar os padrões da sociedade da altura: apaixonam-se e decidem casar.

Eis que acontece aqui o desequilibro na narrativa: não podem casar por uma descoberta que exige uma reflexão sobre a moral. Não casam. Por enquanto.

A aventura continua.

Convido a folhearem as 530 páginas numa edição da Círculo de Leitores que arranjei numa livraria antiga na rua José Falcão no Porto. Na Penguim são 447 páginas. Procurem o livro e tirem o véu que cobre o romance. Vale a pena!

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