Literatura, livros

Correntes d’Escrita e a pintura de Bosch

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O músico, ilustrador e escritor português Afonso Cruz levou na passada sexta-feira o pintor Bosch à sua mesa (número 5) no Correntes d’Escrita. O mote para a conversa estava no programa: ‘O que escrevo atormenta o que sou’. No painel estavam presentes a escritora cubana Karla Suarez, os portugueses João Tordo, Sandro William Junqueira e Lopito Feijóo em representação do escritor angolano Helder Simbad, que por “razões burocráticas” não pode estar presente na 19ª edição do certame literário, na Póvoa de Varzim.

Afonso Cruz contraria a ideia da dor no ato de escrever. “Adoro escrever, tenho prazer em escrever e se não tivesse não escreveria, o que não quer dizer que por vezes não me magoe”, confessa o escritor, passando a sua palavra a uma mostra de slides, em que analisa uma pintura do pintor holandês do século XV. No quadro surge a figura de Jesus Cristo rodeado de dois homens a ampará-lo. Um destes homens tem no chapéu uma folha de carvalho. Afonso Cruz compara o desenho do carvalho à forma do cerebelo humano e conclui, perguntando: “Será que Deus na verdade está a dizer-nos que está na cabeça e é nela que reside o nosso sofrimento?”.

O laureado com o prémio da União Europeia para a Literatura deu exemplos de escritores que partilharam dores literárias, como Flaubert que tomava as dores da sua conhecida personagem Madame Bovary.

Já João Tordo, escritor que venceu o prémio Saramago em 2009, partilhou com o público que encontrou refúgio na escrita para evitar a comunicação oral, “dificil” para a sua “gaguez”. O escritor português mostrou uma série de histórias sobre monstros e BD’s que escreveu quando tinha apenas sete anos. A ideia era demonstrar como “nasceu” para o escritor “a literatura”.

Karla Suarez leu um longo texto na sua língua mãe e explicou que “escrever é um verdadeiro ato de exorcismo”, cujo final é atingir o leitor, ou “o leitor acaba por ser os próprios olhos”.

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criança, Literatura, livros, ser humano, solidariedade

‘que luz estarias a ler?’

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Que luz estarias a ler? é um livro escrito por João Pedro Mésseder e ilustrado por Ana Biscaia. É um conto real para adultos e crianças. Eu li à minha filha de 6 anos. No fim pedi-lhe que sempre que tivesse uma reclamação a fazer pensasse no nome Aysha.

Ia o mês sete e oito de 2014 quando as bombas israelitas mataram crianças palestinianas numa escola na faixa de Gaza. A história pela pena de Mésseder e o olhar do desenho da Ana Biscaia conta este momento trágico na frágil história da Humanidade.

Aysha uma menina palestiniana que via nos livros uma luz que a distraia no som da sirenes, das bombas, dos humanos aflitos. Ela e os amigos liam histórias, aliviavam o sofrimento em páginas de livros da escola. Naquele dia em que a escola de Aysha foi bombardeada, a menina perdeu o melhor amigo, Kalil.

Aysha pergunta ‘que luz estarias a ler?’ quando o amigo Kalil perdeu a vida no meio de uma batalha de governantes.

Há aqui uma metáfora entre a literatura e a realidade das coisas. Para quem ainda se pergunta para que servem os livros, respondo: para isto mesmo, uma luz que nos distrai da sombra dos dias.

A cada reclamação, um nome: Aysha.

 

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feminismo, Literatura, livros, mulher

“Ora, o leitor sabe muito bem que eu nunca tinha feito nenhuma promessa formal nem assumido compromissos”. O ténue feminismo de Bronte em 1847.

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Charlotte Bronte escreveu A Paixão de Jane Eyre em 1847. Foi o seu primeiro romance, adaptado diversas vezes ao grande e ao pequeno ecran. É uma obra esplêndida, um livro muito bem escrito, onde as palavras trazem imagens a ilustrar cada página.

Fiquei fascinada com o estilo vitoriano que não destoa nos dias de hoje. Uma cadência natural da história, e sobretudo, um feminismo à época pouco usual mas que está aligeirado em algumas linhas.

Jane uma mulher feia, maltratada na infância que soube colocar a vida nos trilhos que ela própria comanda. Dura nas suas opiniões e fiel ao seu espírito, mulher que foge de dependências e constrói a independência. É uma mulher insubmissa – o que acho admirável à época; descrever-se e escrever-se linhas com tais características numa mulher. Não sei se na ocasião se se chamaria feminismo, mas hoje, Jane poderia bem ser uma feminista a lutar pela igualdade de género.

O estilo vitoriano descobre-se não só pela época em que foi escrito o romance, mas na abordagem que a escritora faz ao leitor. Frequentemente dirige-se à audiência como se estivesse a contar a história num palco de teatro: caro leitor, o leitor sabe, etc. Isto aproxima sem dúvida o relato do leitor.

É uma espécie de conto de fadas. O relato é feito na primeira pessoa. A infância da personagem principal, Jane Eyre, é dura. Gata borralheira numa casa de madrastas. Logo, a vida encarreira Jane ao destino de Thornfield Hall onde conhece o seu príncipe encantado, Mr. Rochester, que igualmente feio, e mais velho vivem uma história a quebrar os padrões da sociedade da altura: apaixonam-se e decidem casar.

Eis que acontece aqui o desequilibro na narrativa: não podem casar por uma descoberta que exige uma reflexão sobre a moral. Não casam. Por enquanto.

A aventura continua.

Convido a folhearem as 530 páginas numa edição da Círculo de Leitores que arranjei numa livraria antiga na rua José Falcão no Porto. Na Penguim são 447 páginas. Procurem o livro e tirem o véu que cobre o romance. Vale a pena!

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alegria, coisas de mulher, criança, gente do porto, livros, ser humano, solidariedade

EVERY GIRL

Every Girl é o nome de um futuro livro e também um movimento internacional que pretende abraçar todos – mulheres, homens, meninas e meninos. No Every Girl são contadas histórias da infância de mulheres de todos os países. Sim, isso mesmo, de todo o mundo!

A ideia é aconchegar culturas, aproximar histórias e partilhas de pessoas diferentes, mas iguais.

A ideia partiu de uma menina do mundo chamada Claire Read. Já conta com inúmeras ajudas e voluntários que acreditam que através de histórias contadas às crianças sobre as diferenças culturais de cada país, essas diversidades enraízam-se do modo mais positivo.

Aliado a esta ideia genial e bestial está um acto solidário: 25% dos lucros do Every Girl vão para a www.salamuk.org, uma associação de apoio a refugiados, que dá voz à fragilidade das crianças e se preocupa com o empoderamento feminino.

Vamos ajudar? Visitem: https://www.iameverygirl.org/about

E CONTRIBUAM!

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alegria, cusquice, jornais, livros, ser humano

Gosto muito da cusquice dos olhos no livro, jornal, telemóvel ou computador do vizinho do lado.

É inevitável. Sentámo-nos e se o vizinho do lado estiver agarrado a qualquer um daqueles objetos, os nosso olhos ganham personalidade coscuvilheira. Curiosidade, interesse, cusquice? Não sei. Se enfiámos as mãos no colo, se o lado da janela está ocupado, para onde se dirigem os olhos? Para aquela página do jornal que contornamos até poder ler o título todo, numa espécie de coreografia que ganha velocidade à medida que a pessoa na posse do jornal se apercebe, e faz de tudo para nos dificultar a tarefa.

E nós versus eles, enterramos ainda mais os olhos, ao desafio, e neste ponto, de um zás brusco, pumbas, o vizinho muda a página, a mostrar mau génio. Pior: fecha-o, guarda-o. Como quem diz: este jornal é todo meu, se quiseres compra o teu.

Se enfiámos as mãos no colo, se o lado da janela está ocupado, para onde se dirigem os olhos? Para aquela página do jornal que contornamos até poder ler o título todo, numa espécie de coreografia que ganha velocidade à medida que a pessoa na posse do jornal se apercebe, e faz de tudo para nos dificultar a tarefa.

A cusquice dos olhos no jornal do vizinho

Citação
livros, Sem categoria

Dos livros

Na carruagem do metro que eu escolho vão sempre pessoas com livros como se fossem filhos. Os livros sentam-se no colo, a pessoa está ali mas não está ali. É aqui que a minha curiosidade extravasa. Seja homem ou mulher, agarra o livro como se alguém fosse agente de execução e penhorasse o livro. Agarram com força o livro nas mãos, encostam-no à cara como se se tivessem esquecido os óculos em casa, e sempre que algum olho alheio tenta perceber o título ou o autor, o livro, na carruagem como troféu, é imediatamente escondido entre os braços. ‘tu põe-te fina, tu nem tentes pegar no livro, tu não olhas o meu livro, o livro é só meu’. É um gesto mimado. Escrevia eu que as pessoas que lêem no metro não sabem que estão no metro. Navegam. Viajam – dentro de si mesmas. Tornam-se outras – nos breves minutos que a viagem do metro dura – as mesmas linhas de uma história qualquer fechada entre duas capas – as pessoas que trazem ao colo um livro não tiraram o andante, mas sim um bilhete além da minha carruagem.

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