Uma horta no metro. Uma vida.

Uma horta entrou na minha viagem de metro no último fim-de-semana. Uma horta de hortaliça, nabos, cenouras, batatas.

Todos os legumes enfiados num  saco reciclável mas a espreitar cá para fora, curiosos, a respirar. Quem os transportava era uma senhora de cara gasta pelo tempo. Adivinho que o marido já terá partido.

A mulher arranja lugar para ela e para a horta ambulante. Imagino a vida dela:

o dia a desmascarar-lhe a cara, o pão seco que come ao pequeno-almoço, as migalhas que ficam na mesa, enquanto faz a cama, varre o pátio, amanha o peixe do almoço. vai longe buscar os legumes para a sopa, onde ninguém a  conhece. assim, pode instalar-se num banco à porta de casa e vender os legumes que sobram. assim, pode comprar o pão do dia seguinte, amanhar o peixe da próxima refeição. 

Imagino:

tem três filhos. um nos estados unidos, outro em lisboa e outro que se esqueceu de onde veio. de vez em vez recebe um ou outro telefonema dos filhos. dá duas de letra com a vizinha da porta ao lado. toma café para esfregar menos o olho, e só lava duas vezes o cabelo por semana. 

Continuo:

tem muita tralha de roupa no único quarto de casa, mas usa sempre a mesma camisola de malha preta, já com um buraco, cosido todas as vezes que quer falar. recebe cartas: da luz e da água. e à noite encosta o olho à televisão enquanto sorve a sopa quente. e todas as vezes que se arrasta até à cama solta um ai. não para se lamentar, mas para se fazer ouvir. 

Parei de imaginar. Tenho a sensação de estar a tocar a verdade.

Anúncios

O sol pinga nas janelas sujas do metro

O sol pinga nas janelas sujas do metro. É Páscoa deviam esfregar isto tudo. Vai a bailar a empregada de limpeza com o balde numa mão e a esfregona na outra, agarrada ao varão, e os olhos agarrados ao vidro fosco em jeito de pegada de um inverno que passou. É Páscoa deviam esfregar isto tudo. Reitera a mulher com o olhar escorrido e o profissionalismo que lhe foi ensinado desde sempre e para sempre. Fala alto à espera de consentimento por parte de quem não entende de vidros foscos, e quem anseia apenas pelo feriado, que é o que a Páscoa tem a ver e não É Páscoa deviam esfregar isto tudo.

Quem tem o coração perto da boca faz dos outros ouvidos-moucos.

Ela bate na mesma tecla. E o resto dos passageiros à procura de significado naquelas palavras, nada dizem. Isso ou apenas falta de coragem. Quem tem o coração perto da boca faz dos outros ouvidos-moucos.

É Páscoa e os vidros caminham foscos. À espera que alguém se dê conta da necessidade de Renascimento em dias tão adormecidos.

dia internacional do ser humano

A semana passada assistimos ao triste episódio de um eurodeputado dizer no Parlamento Europeu que as mulheres devem ganhar menos, uma vez que “são mais frágeis e menos inteligentes”. isto, foi dia 2 de Março de 2017. 2017.

Hoje, no dia internacional da Mulher, querido, envio-te estas palavras, para que aprendas, embrulhes e te lembres sempre:

Fixa estes grandes nomes de feministas, mulheres, pessoas, seres humanos que fazem de ti um nojo:

Continue reading →