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Gosto muito de deduzir histórias sobre as imagens que vejo, fotografo. Como escreveu Roland Barthes na sua Câmara Clara:”O que a fotografia reproduz ao infinito só ocorreu uma vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente”.  É como todos aqueles objectos encarcerados num antiquário. Já passaram do tempo deles, mas ficaram. Parecem pedinchar por uma segunda oportunidade. Que estórias contarão estas coisas encafuadas numa loja da baixa do Porto? Quem as procurará? Por que estarão elas ali?

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Até à essência –

Amar-te até ao fundo de ti.
Não quero dizer até aos teus ossos,
Não,
Nada disso.
Amar-te ao fundo de ti
Onde tu,
És invisível,
Ao mesmo tempo virginal.
Até ao fundo de onde não estás,
Fisicamente,
Digo.
Quero perfurar a última veia
Da tua alma
Vê-la nua sem pudor.
Abraçar-te destemidamente.
Alcançar-te desmesuradamente.
Perder-me no verbo amor.
Ah, desculpa, amar.
Para além de ti.
Teus gestos, anseios, medos.
Beijar-te como na primeira noite de todos os amantes.
Como no fundo de um deserto onde se encontra água.
Sofregamente.
Demoradamente.
Conquistar-te o futuro,
Além de ti.
Em que pensar agora, senão em ti? Tu que.
Que me acendes noites escuras.
Que me engravidas de palavras sem porque.
Que me assomes sem permissão.
Que me abres a porta de todas as refeições.
Que és verbo e nome ao mesmo tempo.
Tu que gritas dentro de mim,
e eu calo-me lá fora.
Amar-te até ao fundo de ti.
No fundo de mim eu sei
Que tudo o que existe para amar
É o fundo de ti.

 

 

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‘Bom passeio a Fátima’

Onde deixaram as vossas crianças hoje? Puseram-nas em peregrinação até ao santuário de Fátima? Ficaram com avós que se predispõem a tudo? Faltaram ao trabalho (no privado, claro)?

Ontem as funcionárias da escola pública alongavam um sorriso de lés a lés na cara.

‘Então, bom passeio a Fátima’, ironizavam algumas mães.

‘Não podemos negar o que nos dão’, justificava a funcionária. Com razão.

Eu ainda tive a ideia de deixar a minha criança às portas da calçada da Ajuda em Lisboa, mas ainda assim Fátima é mais perto. Ou na residência do Primeiro-Ministro, mas a debandada não ficava à mão.

Aproveitando o entusiasmo de Assunção Cristas: que tal uma estação de metro até Fátima?

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mulher, Páscoa, Sem categoria

O sol pinga nas janelas sujas do metro

O sol pinga nas janelas sujas do metro. É Páscoa deviam esfregar isto tudo. Vai a bailar a empregada de limpeza com o balde numa mão e a esfregona na outra, agarrada ao varão, e os olhos agarrados ao vidro fosco em jeito de pegada de um inverno que passou. É Páscoa deviam esfregar isto tudo. Reitera a mulher com o olhar escorrido e o profissionalismo que lhe foi ensinado desde sempre e para sempre. Fala alto à espera de consentimento por parte de quem não entende de vidros foscos, e quem anseia apenas pelo feriado, que é o que a Páscoa tem a ver e não É Páscoa deviam esfregar isto tudo.

Quem tem o coração perto da boca faz dos outros ouvidos-moucos.

Ela bate na mesma tecla. E o resto dos passageiros à procura de significado naquelas palavras, nada dizem. Isso ou apenas falta de coragem. Quem tem o coração perto da boca faz dos outros ouvidos-moucos.

É Páscoa e os vidros caminham foscos. À espera que alguém se dê conta da necessidade de Renascimento em dias tão adormecidos.

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No desgaste do dia

Há uma pequena que me fita o olho já no desgaste do dia. Será que me tenta adivinhar os sonhos? Eu tento adivinhar os dela. Quer ser mãe e ter filhos, muitos – quando crescer. Depois quer ser médica, ao mesmo tempo de cantora, claro. Quer correr o mundo com o apaixonado, as amigas, e os filhos. Quer crescer e ver os pais sempre no mesmo lugar – nem mais novos, nem mais velhos.

Possivelmente, a garota de fita à roda da cabeça já me acha crescida o suficiente para ter todos os sonhos dela e mais alguns. Conto-lhe a verdade? Que a vida é longa, mas também curta para somar sonhos. Todos, pelo menos. Que um ou outro andaram perto, que um se realizou que até parece mentira, e uns quantos andam aos caídos em agendas, em pontos de ‘cheklist’ à espera de visto de concretização? Que existe tanta coisa fora do nosso controlo que sabemos na realidade da idade que não vão sair do papel?

Esta realidade  que contrasta com a inocência dos olhos da menina que me fita…já no desgaste do dia…a contrastar com o desgaste dos anos.

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Os rostos cansados pelo metro

As caras estão gastas e logo de manhã. Maquilhagem forçada nas mulheres que acordam cedo-ainda-antes-do-cedo com este propósito. Homens com olhos ainda arrepiados com a primeira água do dia. O que faz isto a estes rostos sem cor? O tempo sem tempo? A correria a enganar o tempo até ao metro?

Pessoas que falam com auscultadores, que não respondem a bons-dias, que negam cada olhar.

Sentam-se como se a carruagem estivesse sem gente. Como se fossem eles toda a gente, ali e no mundo.

Sem olhar o lugar do lado. Onde está o outro.

De manhã sentam-se com rostos que rejeitam outros rostos –

que rejeitam os já rejeitados.

Manhãs limpas em rostos sujos.

Por isso gostava de te dizer, coloca um tempero a condizer com a tua manhã. Para que ela caia em graça no prolongar da tua alvorada.

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O sol comido pelo relógio.

A mudança de hora mudou o desenho nas caras das pessoas. Agora escurece mais cedo, e os sorrisos também recolhem mais cedo: parece-me. A luz acende mais cedo dentro da carruagem e os bocejos crescem, pois apesar do relógio ainda estar longe da noite, o sol cai do céu – cedo demais.

A mulher que segue à minha frente mexe no relógio,

-acerta a hora? pergunto-me.

Ajeita o dia, a ver se equilibra a natureza e o espírito?

Não sei. Sei que este sol, com o tempo a prazo, parece comido com a mudança da hora.

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