ser humano

Pintar com a boca

Cá por casa, os meus filhos recebem postais das madrinhas desde que eles se sabem afilhados/madrinhas. A minha função é proteger os ‘pergaminhos’ para que um dia lá para a frente no calendário, as crianças possam ler e recordar as lembranças das madrinhas de lá de trás no calendário.

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O postal da foto chegou há uma semana. O desenho chama-se <O Perfume das Flores>. No verso do traçado está escrito: <Original pintado com a boca por>. A seguir ao <por> surge um nome chinês.

Paro-me na imaginação da pessoa que desenha com a boca. O que aconteceu? A necessidade fará o talento? Ou o talento existe mesmo antes da necessidade?

Daqui nasce a palavra <capaz>. Somos todos capazes? Precisaremos de ir ao fundo para ganhar impulso e renascer com algo novo?

Flaubert Gustave dizia que <para termos talento é preciso estarmos convencidos de que o temos>. Ou seja, ganhar consciência de que o talento está do nosso lado, que jogamos na mesma equipa, é meio caminho andado para ‘o céu é o limite’. Neste caso, é preciso ter coragem para se ter talento. Muita.

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ser humano

A bengala que vê

Sou atraída pelo tac tac tac que a cega dá no chão da rua com a bengala que lhe serve de par de olhos. No rosto transporta uns olhos azuis, redondos, perdidos por todo o espaço.

“Precisa de ajuda?”. Pergunta injusta e desnecessária. Todos os olhos azuis, redondos, perdidos por todo o espaço, apoiados numa bengala carcomida, precisam de ajuda.

A voz da cega, cujo o nome, descobri-lhe mais tarde, é Susana, segura-se em mim.

“Sim, vou para a Batalha, leva-me até lá?”.

Nunca nos encontrámos, mas abraçamos os dois braços e seguimos juntas, estranhamente juntas, rua de Santa Catarina fora. A bengala é recolhida, e eu passo a ser o par de olhos da Susana.

Dez minutos sem me ver, a Susana via apenas a minha voz. Naqueles dez minutos, ao ouvir-me teve a certeza que eu parecia ter 22 anos, mas que era de certo mais velha e que “com certeza” já teria filhos.

Eu com os meus olhos azuis não lhe descobri nada. Teve de me desvendar o filho de 18 anos que orgulhosamente estuda medicina. “Ainda há pouco me ligou para perguntar como estava e para pedir ajuda”.

A Susana estava constantemente a desculpar-se pela ajuda. E eu constantemente a agradecer-lhe por poder ajudar.

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ser humano

casa

casa

ca·sa 
(latim casa-aecabanacasebre)

substantivo feminino

1. Nome genérico de todas as construções destinadas a habitação.

Casa, o lugar onde nos sentimos seguros. O sítio onde guardamos todos os dias as tralhas de cada dia. O lugar onde recolhemos com a sinceridade da lágrima e do riso. O espaço onde encontramos o abraço certo, onde nos despimos de máscaras e podemos dançar sem passos decorados a nossa personalidade.
Em casa dispomos a mobília como queremos, de acordo com o o nosso gosto. Lá realizamos todas as necessidades.
A casa de um homem é o seu castelo dizia Edward Coke, político inglês do século XVII.
Basta em algum canto a cor de uma laranja, uma moldura para visitar uma memória, e um agasalho para a ocasião, e mesmo a céu aberto construir uma casa, mesmo que fugindo do seu significado.
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Frio, ser humano

A solidão é a perfeita companheira da morte

A solidão é a perfeita companheira da morte. Um homem, português, novo, talentoso, longe do aconchego da cultura, da família, dos amigos; morre só, ao frio, lá longe, na terra desprovida do adusto da vida – Londres.

Em 2018, às portas do parlamento britânico, um emigrante português, um ser humano, perdeu a vida na própria casa. Era sem-abrigo, a sua casa era a estação de metro de Westminster. É uma casa sem cozinha, sem sala, sem quarto, sem casa de banho. Com muita gente a passar. Só a passar, sem ver. Muita gente, demasiada gente, que passa e não olha, que passa e não vê, que passa e não repara.

A nossa Humanidade diminui, sentimo-nos pequenos, impotentes. A conversa regressa ao princípio, regressa à mesma pergunta: onde é que estamos a falhar? Com os políticos, os primeiros, supostamente a ter que dar o exemplo, os últimos a agir. Jeremy Corbyn, líder do partido Trabalhista inglês, surge a lamentar que os deputados nada puderam fazer, e a varrer o assunto com flores para dentro da estação, onde morreu uma pessoa, sozinha, à procura de trabalho, ao frio, numa cidade gigante, com tanta a gente a passar e a não ver, a não olhar, a não reparar.

Até quando? De acordo com associações e amigos este sem-abrigo, português, estava inscrito no centro de emprego, à procura de trabalho, já tinha trabalhado, perdeu o trabalho. Ficou a zero perante o empreendimento que é a vida.

Até quando?

Onde estamos a falhar?

Os governantes, os responsáveis máximos são obrigados a responderem a estas perguntas. A fazer mais. A não varrer flores para onde quer que seja. Estão obrigados pôr em prática ações para dar vida à vida de todos os cidadãos.

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ser humano

Assustadoramente dois enfermeiros

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Assustadoramente, dois enfermeiros. O trabalho de dois enfermeiros num único turno, ao qual se soma o trabalho de duas auxiliares para o serviço de ortopedia do Hospital de Santo António no Porto. Um serviço preenchido maioritariamente por pessoas idosas com a autonomia abalada, causada por quedas desajustadas à idade.

Contei uma, duas, três, quatro, cinco, seis, salas ou enfermarias, cada uma, com três camas, fora destas contas, ainda uma outra sala, que recebe oito camas com recepção do serviço incluído.

E assustadoramente: para mudar fraldas, lençóis, ajudar a dar a comida aos doentes, dar a medicação, subir cama e baixar cama, assustadoramente dois enfermeiros, duas auxiliares.

a s s u s t a d o r a m e n t e.

Este é o nosso SNS. Dois enfermeiros impecáveis, profissionais, atenciosos. Contudo, o sorriso largo e a agilidade de dois enfermeiros não suprime a necessidade gorda de cerca de 23 pacientes no corredor de um serviço tão exigente como é o de ortopedia.

A saúde só pode ser ‘saudável’ com a contratação e com recursos humanos suficientes e eficientes. Não é o caso. De todo.

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alegria, ser humano, solidariedade

Carta da Compaixão – uma carta que une religiões numa iniciativa internacional

Logo Charter for Universal Compassion

Carta da Compaixão é um documento elaborado por personalidades religiosas de praticamente todo o mundo, e surge no âmbito de uma iniciativa internacional que pretende alertar para a necessidade de entender o próximo.
Ideia lançada em Fevereiro do 2011 por Karen Armstrong, uma ex-freira católica que se tem dedicado ao estudo das religiões monoteístas, a Semana da Compaixão iniciou-se em Dezembro de 2012 com a revelação da Carta da Compaixão.
Em Portugal, o ponto alto das celebrações aconteceu numa cerimónia que reuniu ateus, agnósticos e representantes das várias religiões e credos.
Durante uma semana, nos templos das várias confissões religiosas, desde católicos a hindus, passando por budistas, muçulmanos, baha’is, ismaelitas e judeus, ocorreram homilias, sermões e alocuções em que o tema central vai ser a compaixão, esclareceu, na ocasião, à comunicação social, Abdool Vakil, que chefia a comissão portuguesa para a Carta da Compaixão.
Abdool Vakil integra a European Muslim Network, um grupo de reflexão a nível europeu que aderiu à iniciativa lançada por Karen Armstrong e que conta com o patrocínio do Dalai Lama.

Se quiseres assinar a Carta da Compaixão e ficares mais envolvido nesta iniciativa que é do Mundo clica aqui.

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Media, ser humano, Teatro

Não há teatro de inclusão. Há teatro.

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[Fonte fotografia: APPC]

É mais uma quarta-feira de ensaio, só que hoje não há ensaio. No teatro ensaia-se mas também trata-se de logística, e é preciso preparar o ano e a agenda. O telefone toca: “Não há cache, mas pagam o transporte e a comida”. Mónica Cunha, de 47 anos está há 20 no grupo de teatro Era uma vez da APPC – Associação do Porto de Paralisia Cerebral. Ela ensaia, orienta a equipa, cuida de tarefas como marcação dos espectáculos, faz muito por todos.

Estão a marcar o espectáculo para irem a Estarreja. Mónica recusa-se a falar em teatro inclusivo. “Teatro é teatro, nele representa-se”, defende. A técnica de Mónica, como frisa, é a “igualdade”.

O Era uma vez é composto por 14 elementos, Henrique é o mais velho na companhia. Diz que há 20 anos não se via muito público na plateia, hoje em dia “já se vê mais qualquer coisa”.

Este ano vão estrear o Epidemia Urbana, em Julho, no Porto. A peça foi criada a partir do Ensaio Sobre a Cegueira do Nobel português, José Saramago. O grupo conta com uma motivação exacerbada que os leva a ultrapassar os limites e que estes fiquem adormecidos pela imaginação.

O processo criativo do grupo começa com diferentes leituras por cada um até chegar à escrita de cada cena, e por fim, do guião final. Aceitam qualquer desafio que seja bom. Por exemplo, ressuscitam textos de William Shakespeare. Ensaiam todos os dias, porque, como diz Mónica, “isto é um trabalho e nós levamos a sério o que gostamos de fazer”.


Para saber mais sobre a companhia e agenda de espectáculos: http://www.appc/eraumavez.pt

O Era uma vez organiza um casting a 26 de Janeiro. Aparece, é aberto a toda a comunidade!

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