O som que o metro faz ao chegar

O Porto foi considerado, uma vez mais, o melhor destino europeu, e o sol regressou ao céu, em esplendor. A acompanhar a farra destes dias que eleva o sentimento tripeiro assiste-se à mudança de humor nas pessoas que levam a vida pelo metro. Se antes, em tempo de chuva, as caras acabrunhadas passeavam-se em silêncio; hoje as portas do metro rangem novamente. Assim como, penso, os versos da Ana Luísa Amaral. ‘O som que os versos fazem ao abrir’, escreve a poeta. Quer-me parecer que o som será idêntico, de felicidade pardacenta. Como o Porto. Sempre na sombra de um sol deslumbrante, ‘a moer um sentimento’. Não é assim?

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Os rostos cansados pelo metro

As caras estão gastas e logo de manhã. Maquilhagem forçada nas mulheres que acordam cedo-ainda-antes-do-cedo com este propósito. Homens com olhos ainda arrepiados com a primeira água do dia. O que faz isto a estes rostos sem cor? O tempo sem tempo? A correria a enganar o tempo até ao metro?

Pessoas que falam com auscultadores, que não respondem a bons-dias, que negam cada olhar.

Sentam-se como se a carruagem estivesse sem gente. Como se fossem eles toda a gente, ali e no mundo.

Sem olhar o lugar do lado. Onde está o outro.

De manhã sentam-se com rostos que rejeitam outros rostos –

que rejeitam os já rejeitados.

Manhãs limpas em rostos sujos.

Por isso gostava de te dizer, coloca um tempero a condizer com a tua manhã. Para que ela caia em graça no prolongar da tua alvorada.

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O sol comido pelo relógio.

A mudança de hora mudou o desenho nas caras das pessoas. Agora escurece mais cedo, e os sorrisos também recolhem mais cedo: parece-me. A luz acende mais cedo dentro da carruagem e os bocejos crescem, pois apesar do relógio ainda estar longe da noite, o sol cai do céu – cedo demais.

A mulher que segue à minha frente mexe no relógio,

-acerta a hora? pergunto-me.

Ajeita o dia, a ver se equilibra a natureza e o espírito?

Não sei. Sei que este sol, com o tempo a prazo, parece comido com a mudança da hora.

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Outono no metro

O Outono está a intrometer-se nas carruagens do metro. Entra desvairado, ora molhado, ora seco-em-folhas-castanhas. As roupas crescem pelo corpo, os adereços das senhoras multiplicam-se da cabeça aos pés – a moda está no ar, que é como quem diz, está no metro. Mudanças. Assim como as cores das linhas do metro, o transbordo, a estação do ano muda e a vida nos carris e dos carris acompanha a tendência. Sobretudo, já se espirra. Os óculos de sol são para o estilo.O sol apenas tempera o ambiente. A chuva começa a sorrir. Sim, a chuva também sorri.

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Das línguas e das cores

há um grupo de pessoas que se apodera do quadro com as informações sobre horários e zonas no metro. falam alto. ainda não os tinha visto da escada rolante e já imaginava o cenário: espanhóis, histéricos. aproximei-me do quadro, porque queria saber uma informação. mas esses espanhóis, desde há três séculos que nos querem à força – seja terra, mar, ou o quadro com as informações sobre as linhas do metro. de rompante olham para trás. deparam-se com o meu olhar intrometido, à espera de uma oportunidade de me infiltrar naquela tertúlia sobre para onde vai este e aquele metro. fui presa fácil. apontaram-me os canhões das perguntas: quero ir para aqui, como faço? [sempre em espanhol, claro!] e eu, em português [sempre, claro, por patriotismo, apenas]: é assim, assim, assim. uma verdadeira professora, apontar para o esquema do metro, a explicar tudinho. os ‘ muchachos’ na casa dos 50 anos foram embora e nem um ‘gracias’. bem posso viver sem ‘gracias’. não o fazia na terra deles, e ainda bem que houve um 1º de Dezembro e o grupo dos Quarenta Conjurados.

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Dos livros

Na carruagem do metro que eu escolho vão sempre pessoas com livros como se fossem filhos. Os livros sentam-se no colo, a pessoa está ali mas não está ali. É aqui que a minha curiosidade extravasa. Seja homem ou mulher, agarra o livro como se alguém fosse agente de execução e penhorasse o livro. Agarram com força o livro nas mãos, encostam-no à cara como se se tivessem esquecido os óculos em casa, e sempre que algum olho alheio tenta perceber o título ou o autor, o livro, na carruagem como troféu, é imediatamente escondido entre os braços. ‘tu põe-te fina, tu nem tentes pegar no livro, tu não olhas o meu livro, o livro é só meu’. É um gesto mimado. Escrevia eu que as pessoas que lêem no metro não sabem que estão no metro. Navegam. Viajam – dentro de si mesmas. Tornam-se outras – nos breves minutos que a viagem do metro dura – as mesmas linhas de uma história qualquer fechada entre duas capas – as pessoas que trazem ao colo um livro não tiraram o andante, mas sim um bilhete além da minha carruagem.

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Da música

Onde há música há alegria. Mas não é tanto assim, quando a melodia sai dos ouvidos de qualquer um no metro. Seja manhã, tarde ou noite, há gente e gente com phones enfiados nos ouvidos, a tentar ser invisível ao mundo. Só que o que acontece é precisamente o oposto. gente no metro com phones colados nos ouvidos atrai tudo e todos. Atrai ainda mais gente. Gente que não se importa, gente que curte, gente que não suporta, e gente que bufa. É que a música não lhes fica apenas nos ouvidos. Sai de lá de dentro e impregna-se em tudo quanto pode. Parece uma daquelas roupas que fica trilhada na gaveta do armário , se não a fecharmos com cuidado. Num destes dias no metro, um rapaz ia com a música aos berros nos ouvidos. E dormia. Pacientemente. Música? O som ia mais ou menos assim: tz, tz, tz, tz. Não saía disto. Há gostos para tudo. As frases dos avôs fazem cada vez mais sentido. A vizinha, sentada no banco ao lado bufava por todos os lados. Mexia-se no assento. Mas o rapaz não acordava e a música não se calava. Coube-me a missão de tirar o rapaz do mundo dos sonhos. Olhou-me de lado. ‘Será que podias baixar o som, se faz favor’, pedi. ‘rgghhhrrrgghh’, respondeu. A senhora agradeceu com um sorriso. Voltou a realidade com a música de todos os dias.

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Dos picas

As mulheres roliças empurraram-se para dentro do metro. Traziam sacos, carteiras, mochilas com rodinhas, e sobretudo traziam o próprio peso. Suor de um dia inteiro, tatuagens gastas pelo tempo a contar histórias de homens apaixonados de espingarda na mão. Falavam como num auditório, muito alto. Sobre ‘a morcona da mulher do tone que nem um filho da puta de um peixe sabe fritar’. Tinham o cabelo manchado de cores. O entusiasmo das duas foi interrompido pela presença dos ‘picas’. Tantos sacos, carteiras, mochilas com rodinhas e nada de andante. O ‘pica’ não pôde picar e por isso multou. ‘oh foda-se, oh pica, deixe passar esta, é só uma paragem’. ‘oh caralho, onde é que você ‘tava que num o ‘bi’…olhe, se sabia, ia noutro’. O ‘pica’, um senhor bastante simpático para a linguagem que lhe era dirigida, explicou minuciosamente à mulher roliça mais descontrolada que eram ‘as regras’. mas a mulher podia até saber fritar melhor peixe do que a mulher do tone, mas regras não era a sua praia. Dizia ela que mal abandonasse o metro ia rasgar o papel da multa e esquecê-la. O senhor ‘pica’ pediu-lhe ‘respeito’. Será que é respeito no pagamento das facturas que o país nos anda a pedir há muito tempo? Será que foi esse o metro que apanhámos sem pagar bilhete?

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Dos tacões

ela entrou no metro aos tropeções. primeiro tropeçou num tacão. depois o outro falhou. mesmo à entrada do metro. mesmo à mercê da gargalhada alheia. a miúda com cara pintada de mulher devia ter uns 17 anos. de livros na mão e castigada pela chuva, entrou no metro já corada pelo sucedido – como se ainda estivesse a ensaiar a personagem para as amigas na escola. tentava trejeitos de mulher, mas quando levava as unhas à boca denunciava a miudeza dos anos. começou a baloiçar os longos cabelos, e os outros passageiros torciam a cara pelo vento e pingos de chuva que saiam da cabeça da miúda-que-tentava-ser-mulher. a vida é muito perspicaz: faz-nos quer ser grandes, quando pequenos, para aguentarmos todas as vezes que os tacões falham, e faz-nos ficar mais meninos, quando velhinhos, para irmos desta, com a sensação de não estarmos cansados por termos levantado tantos tacões.

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Do frio

Gente embarretada enfia-se trapalhona na carruagem do metro à procura do ar quentinho como quem rasga gente à procura de amor. Lá fora um frio, uma chuva, nomes feios – tudo seguido de adjetivos feios. Os sorrisos descongelam e as mãos despidas de luvas já vão aos telemóveis. Uma senhora aproveita o quente virico para consolar o corpo. ‘a minha casa é gelada como um frigorífico’. ‘e aqui é quente como um forno’. Pensamento em coro. Se pudéssemos prosseguiamos no metro até onde as janelas já não suassem.

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