EVERY GIRL

Every Girl é o nome de um futuro livro e também um movimento internacional que pretende abraçar todos – mulheres, homens, meninas e meninos. No Every Girl são contadas histórias da infância de mulheres de todos os países. Sim, isso mesmo, de todo o mundo!

A ideia é aconchegar culturas, aproximar histórias e partilhas de pessoas diferentes, mas iguais.

A ideia partiu de uma menina do mundo chamada Claire Read. Já conta com inúmeras ajudas e voluntários que acreditam que através de histórias contadas às crianças sobre as diferenças culturais de cada país, essas diversidades enraízam-se do modo mais positivo.

Aliado a esta ideia genial e bestial está um acto solidário: 25% dos lucros do Every Girl vão para a www.salamuk.org, uma associação de apoio a refugiados, que dá voz à fragilidade das crianças e se preocupa com o empoderamento feminino.

Vamos ajudar? Visitem: https://www.iameverygirl.org/about

E CONTRIBUAM!

16143485_318067788594119_4163685920928863341_o.png

Anúncios

O pedido

Todos os dias há um pedido. Uma cara anónima que encontra no meu olhar o conforto suficiente para pedir o pão, uma moeda, as fraldas do bebé, uma sopa. Primeiro desconfiamos, julgamos o aspeto, o cheiro, se fala verdade, se fala mentira. Ficamos perdidos a boiar na mente escura: ‘ajudo, não ajudo’.’ Onde estão os que devem ajudar, o Estado?’ Depois chega a filosofia, a consciência:’ amanhã posso ser eu, posso precisar de ajuda’. Quem disse: um homem só deve levar a mão a outro se for para ajudar?

Sempre um pedido. Uma moeda que se pede. Uma mão que se estende. Na rua. No metro. Hoje essa mão veio de um senhor de idade para lá dos 60 anos. Homem asseado, eloquente, cabelo branco, pele limpa. Mas. Mas com os olhos envidraçados, a brilhar, a estender a mão, à procura de uma moeda que o ajudasse. Que o salvasse. Porque ‘era o comer, era a botija de gás’.

Da boca saíram-lhe um rol de males. Que vem desde trás. ‘O divórcio, o diabetes, os ossos, a construção civil, amputação dos dedos, o comer que tinha que ser especial – os diabetes’, dizia.

Dizia ainda: ‘a reforma por invalidez que chegou tarde, o dinheiro da reforma por invalidez que demora a chegar’.

A Segurança Social? ‘Meteram-me numa instituição para toxicodependentes. Não me adaptei aquele ambiente, pedia à doutora para me tirar de lá, estava a ficar com a saúde pior. É melhor a garagem de um amigo’.

O centro de Saúde? ‘Gasto muito em medicação’. Passo dias nos hospitais’.

Sou uma centelha. Não passo disto no mundo. Podia fazer mais, mas também podia fazer menos. Não fui em nenhuma missão, não faço parte do grupo de corajosos que dão a vida na Síria para resgatar inocentes ao Daesh. Sou pequena, por isso, decidi meter-me nesta missão invisível e pequena de responder aos pedidos. Para sim ou para não. Mas responder. À minha proporção.

Da solidariedade

Há quase duas semanas o impensável aconteceu. Em 2017 pessoas morreram carbonizadas numa estrada nacional num país desenvolvido. O coração minga perante estas tragédias, fica pequeno de triste, molhado de tantas lágrimas. É inevitável pensar na vida – num momento estamos cá a aproveitar a família, os amigos, o trabalho, as férias, a saúde – e no momento seguinte, perdemos tudo. Perguntas assolam a mente: o que sentir, o que pensar, vasculhamos o sentido da Fé. Penso que a melhor homenagem que podemos fazer aqueles que partiram é elogiar a vida, prosseguir o caminho com esperança e perseverança. Sobretudo com amor. Portugal tem gente que sabe erguer. Tem gente que sabe dar a mão. Perante o drama soubemos dar voz à corrente da solidariedade ao ligar inúmeras vezes o 760 e/ou comprar bilhete para um concerto que reuniu centenas de profissionais em nome da palavra Ajuda. Agora é preciso manter a força no coração e manter a solidariedade. A solidariedade é para todos os dias. O amor também. Assim, fazemos um mundo melhor. Assim, vivemos.

amor_solidariedade

Imagem poética

as palavras foram esquecidas pelo chão. ninguém teve o vagar, o espaço, o tempo de lhes dar melhor destino do que o papelão. foram descuidadamente pousadas no chão, onde mijam os cães, onde rasteja o sol e a chuva. alguém depositou ali aquele pedaço de passado. penso que talvez o objectivo fosse apagar a sombra daquelas cartas escritas à mão com letra minuciosa, papel dobrado em três – segredo escancarado na luz do dia. uma imagem poética que me persegue o passo: que falarão aquelas cartas? que história contam? quem as protagoniza? também pensei: o que é lixo e o que não é lixo? ganhei vontade de visitar o meu espólio de cartas. como reagiria? será que as despacharia aproveitando o sopro do vento? ou deixá-las onde estão, no pó do passado?
18739004_10158791049330187_6158510280784892543_o

Uma horta no metro. Uma vida.

Uma horta entrou na minha viagem de metro no último fim-de-semana. Uma horta de hortaliça, nabos, cenouras, batatas.

Todos os legumes enfiados num  saco reciclável mas a espreitar cá para fora, curiosos, a respirar. Quem os transportava era uma senhora de cara gasta pelo tempo. Adivinho que o marido já terá partido.

A mulher arranja lugar para ela e para a horta ambulante. Imagino a vida dela:

o dia a desmascarar-lhe a cara, o pão seco que come ao pequeno-almoço, as migalhas que ficam na mesa, enquanto faz a cama, varre o pátio, amanha o peixe do almoço. vai longe buscar os legumes para a sopa, onde ninguém a  conhece. assim, pode instalar-se num banco à porta de casa e vender os legumes que sobram. assim, pode comprar o pão do dia seguinte, amanhar o peixe da próxima refeição. 

Imagino:

tem três filhos. um nos estados unidos, outro em lisboa e outro que se esqueceu de onde veio. de vez em vez recebe um ou outro telefonema dos filhos. dá duas de letra com a vizinha da porta ao lado. toma café para esfregar menos o olho, e só lava duas vezes o cabelo por semana. 

Continuo:

tem muita tralha de roupa no único quarto de casa, mas usa sempre a mesma camisola de malha preta, já com um buraco, cosido todas as vezes que quer falar. recebe cartas: da luz e da água. e à noite encosta o olho à televisão enquanto sorve a sopa quente. e todas as vezes que se arrasta até à cama solta um ai. não para se lamentar, mas para se fazer ouvir. 

Parei de imaginar. Tenho a sensação de estar a tocar a verdade.

O sol pinga nas janelas sujas do metro

O sol pinga nas janelas sujas do metro. É Páscoa deviam esfregar isto tudo. Vai a bailar a empregada de limpeza com o balde numa mão e a esfregona na outra, agarrada ao varão, e os olhos agarrados ao vidro fosco em jeito de pegada de um inverno que passou. É Páscoa deviam esfregar isto tudo. Reitera a mulher com o olhar escorrido e o profissionalismo que lhe foi ensinado desde sempre e para sempre. Fala alto à espera de consentimento por parte de quem não entende de vidros foscos, e quem anseia apenas pelo feriado, que é o que a Páscoa tem a ver e não É Páscoa deviam esfregar isto tudo.

Quem tem o coração perto da boca faz dos outros ouvidos-moucos.

Ela bate na mesma tecla. E o resto dos passageiros à procura de significado naquelas palavras, nada dizem. Isso ou apenas falta de coragem. Quem tem o coração perto da boca faz dos outros ouvidos-moucos.

É Páscoa e os vidros caminham foscos. À espera que alguém se dê conta da necessidade de Renascimento em dias tão adormecidos.

A cusquice dos olhos no jornal do vizinho

Gosto muito da cusquice dos olhos no livro, jornal, telemóvel ou computador do vizinho do lado.

É inevitável. Sentámo-nos e se o vizinho do lado estiver agarrado a qualquer um daqueles objetos, os nosso olhos ganham personalidade coscuvilheira. Curiosidade, interesse, cusquice? Não sei. Se enfiámos as mãos no colo, se o lado da janela está ocupado, para onde se dirigem os olhos? Para aquela página do jornal que contornamos até poder ler o título todo, numa espécie de coreografia que ganha velocidade à medida que a pessoa na posse do jornal se apercebe, e faz de tudo para nos dificultar a tarefa.

E nós versus eles, enterramos ainda mais os olhos, ao desafio, e neste ponto, de um zás brusco, pumbas, o vizinho muda a página, a mostrar mau génio. Pior: fecha-o, guarda-o. Como quem diz: este jornal é todo meu, se quiseres compra o teu.

Se enfiámos as mãos no colo, se o lado da janela está ocupado, para onde se dirigem os olhos? Para aquela página do jornal que contornamos até poder ler o título todo, numa espécie de coreografia que ganha velocidade à medida que a pessoa na posse do jornal se apercebe, e faz de tudo para nos dificultar a tarefa.