Literatura, livros

O farol de Virginia Woolf

Hoje escrevo sobre o livro “Rumo ao Farol” de Virginia Woolf. A tramada autora inglesa transforma o realismo do romance tradicional e propõe uma nova perspectiva de romance (ou a destruição dele) em que há uma fusão do próprio espaço com o espaço interior do personagem. O tempo atravessa pensamentos e emoções individuais e as suas reações ao mundo são mais fortes e mais importantes que desenrolar de factos na narrativa. “Rumo ao Farol” faz largo uso do fluxo de consciência: a escrita tenta reproduzir o processo de articulação do pensamento individual. Mas mais que uma inovação formal, isso transforma a compreensão e a interpretação da obra. A Sra. Ramsay levanta a cabeça e olha para o seu marido, e deste olhar desperta sentimentos e julgamentos que até então estavam escondidos, até para ela mesma. Isto faz tudo muito ambíguo, logo os factos transformam-se em grandes acontecimentos, onde tudo muda. Então, o romance que nem aparenta ter história a ser contada, apresenta um clímax terrível e uma catarse profunda.

O livro desdobra-se em três partes: A janela, onde se concentram “os factos” até o momento do jantar; O tempo passa, onde as personagens quase não aparecem, é praticamente uma parte do espaço e o este é o personagem principal dessa parte. É por meio do espaço que se mostra a passagem do tempo e a transformação do mundo devido à Guerra. E por fim, Ao farol, comportando a cena de volta dos personagens ao farol anos depois. O tempo passa é bem distinto das outras duas partes e também bem mais curto, contudo é a parte do meio, porque sucinta a ideia central de ruína que o romance transmite, ruína das relações familiares e amorosas previamente postas, dos valores do século anterior, de uma ideia de honra, progresso e coragem e do próprio conceito de indivíduo que havia sido construído pela ideologia burguesa ao longo do século XIX. Assim como o modelo calcificado de romance é destruído no âmbito da forma, o conteúdo da obra traz como a Guerra destruiu muito do que havia nas sociedades europeias até então.

Além de incrível pelas possibilidades de compreensões que apresenta, o livro é lindo de  ler e provoca um prazer estético singular. As descrições da praia, das ondas, do farol, do espaço da casa na velhice e em ruína e do próprio quadro que está a ser pintado por Lily Briscoe são de uma delicadeza e sensibilidade agudas que entram no interior dos próprios personagens e por fim do próprio leitor. Obviamente não se trata de uma leitura super fácil, mas ela mobiliza, no palco da mente do leitor, cores e sensações belíssimas e complexas. A personagem, o espaço e o leitor misturam e perdem as suas fronteiras.

livro-rumo-ao-farol-9-virginia-woolf-D_NQ_NP_728705-MLB26325595904_112017-F

Anúncios
Standard
Cinema

O cinema que conta a história do cinema

cinema (Foto: Rui Pedro Rangel)

Ir ao cinema é para mim um paraíso. Hoje em dia visito pouco as salas de cinema por causa das responsabilidades familiares – com dois filhos é difícil acompanhar cartazes a par com o meu marido. Seja como for, sempre que organizamos a casa conseguimos beijar a grande tela com os olhos.

Esta semana fomos embalados pelo delicioso e histórico Cinema Paradiso no maravilhoso cinema Trindade – que dure para (o meu) sempre.

O filme Cinema Paradiso é o cinema a contar a história do cinema na língua e em linguagem italiana. Um rapaz, Totó, faz uma amizade para a vida com Alfredo. Alfredo tem a função de entreter uma pequena vila italiana.

Guiseppe Tornatore é o responsável por dirigir tal filme encantador de 1990.

A narrativa é simples, e o que é menos é mais, já a minha mãe me ensinou: Totó (Salvatore Cascio), cujo grande amigo Alfredo é o projeccionista do cinema, cria as suas fantasias infantis que vão de Bergman a Chaplin. Inicialmente com semblante durão, Alfredo cede espaço para os encantos do menino. Torna-se, inclusive, o seu herói.

Há um incêndio que destrói o edifício do cinema paradiso e Totó precisa assumir a frente das projeções, com tudo o que aprendeu com Alfredo. A paixão anteriormente amadora torna-se remunerada. A relação problemática com a mãe também muda, pois esta passa a respeitar mais o ofício do filho. Totó apaixona-se arduamente por Elena, filha de um banqueiro que a muda de cidade. Depois da desilusão amorosa, Totó deixa a vila e vai para Roma, retornando 30 anos depois, com a morte de Alfredo.

O Cinema Paradiso é um hino ao excelente trabalho de cenografia e montagem. A direção de arte ganha bastante com a concepção do espaço de exibição de filmes, uma típica sala de cinema nos moldes dos cinemas de rua, espaço alcançado por poucos membros da geração cinéfila contemporânea. É todo um processo ao ritmo poético nas cenas, numa espécie de cinema de poesia, na forma como a montagem intercala cenas de outros filmes que marcaram a história do cinema, juntamente com a trajetória de Salvatore.

O figurino, sob a responsabilidade de Beatrice Bordone, assume o caráter humilde do período, além da fotografia eficiente de Blasci Fiurato. Em suma, uma equipa competente e comprometida, bem envolvida com o diretor. O som é um deleite. A música composta por Ennio Moricone, parceiro em outras investidas do diretor, é quase uma sessão de meditação. As situações de Cinema Paradiso parecem uma adaptação cinematográfica das nossas vidas.

 

 

Standard
ser humano

Pintar com a boca

Cá por casa, os meus filhos recebem postais das madrinhas desde que eles se sabem afilhados/madrinhas. A minha função é proteger os ‘pergaminhos’ para que um dia lá para a frente no calendário, as crianças possam ler e recordar as lembranças das madrinhas de lá de trás no calendário.

IMG_20180408_155406.jpg

O postal da foto chegou há uma semana. O desenho chama-se <O Perfume das Flores>. No verso do traçado está escrito: <Original pintado com a boca por>. A seguir ao <por> surge um nome chinês.

Paro-me na imaginação da pessoa que desenha com a boca. O que aconteceu? A necessidade fará o talento? Ou o talento existe mesmo antes da necessidade?

Daqui nasce a palavra <capaz>. Somos todos capazes? Precisaremos de ir ao fundo para ganhar impulso e renascer com algo novo?

Flaubert Gustave dizia que <para termos talento é preciso estarmos convencidos de que o temos>. Ou seja, ganhar consciência de que o talento está do nosso lado, que jogamos na mesma equipa, é meio caminho andado para ‘o céu é o limite’. Neste caso, é preciso ter coragem para se ter talento. Muita.

Standard
ser humano

A bengala que vê

Sou atraída pelo tac tac tac que a cega dá no chão da rua com a bengala que lhe serve de par de olhos. No rosto transporta uns olhos azuis, redondos, perdidos por todo o espaço.

“Precisa de ajuda?”. Pergunta injusta e desnecessária. Todos os olhos azuis, redondos, perdidos por todo o espaço, apoiados numa bengala carcomida, precisam de ajuda.

A voz da cega, cujo o nome, descobri-lhe mais tarde, é Susana, segura-se em mim.

“Sim, vou para a Batalha, leva-me até lá?”.

Nunca nos encontrámos, mas abraçamos os dois braços e seguimos juntas, estranhamente juntas, rua de Santa Catarina fora. A bengala é recolhida, e eu passo a ser o par de olhos da Susana.

Dez minutos sem me ver, a Susana via apenas a minha voz. Naqueles dez minutos, ao ouvir-me teve a certeza que eu parecia ter 22 anos, mas que era de certo mais velha e que “com certeza” já teria filhos.

Eu com os meus olhos azuis não lhe descobri nada. Teve de me desvendar o filho de 18 anos que orgulhosamente estuda medicina. “Ainda há pouco me ligou para perguntar como estava e para pedir ajuda”.

A Susana estava constantemente a desculpar-se pela ajuda. E eu constantemente a agradecer-lhe por poder ajudar.

Standard
Cinema, Jornalismo

The Post e o resgate da pureza no jornalismo

1966. Uma série de documentos conhecidos como “Pentagon papers” são copiados por um homem presumível assessor que acompanha o presidente Nixon e o seu executivo no tema sobre a presença americana na guerra no Vietname. Dan passa a ter em sua posse os mais altos segredos de Estado.

1971. Há já oito anos Kat Graham dirige o The Washington Post, uma herança do marido que havia se suicidado. Mrs. Graham passa a imagem de uma mulher vulnerável no que toca a decisões difíceis, com fraca comunicação com os seus interlocutores, homens no negócio.

O espaço do filme The Post é a redação do The Washington Post, onde a personagem Ben Bradlee ganha vida. O editor-executivo escolhido por Kat mostra o mais elevado ícone do jornalismo: a liberdade de imprensa.

O recente filme de Steven Spielberg, nomeado para as categorias de melhor filme e de melhor atriz para os óscares 2018, alicia a quem vê como funcionam as malhas do jornalista com as fontes, e o frenesim de uma redação empenhada em fazer jus à democracia através de um jornalismo puro e duro.

Kat Graham toma a difícil decisão de publicar os “Pentagon papers” impulsionando o seu jornal local, mas arriscando pena de prisão. O concorrente The New York Times já havia publicado alguns desses documentos e viu o próprio jornal suspenso pelo tribunal.

É um filme que segue a ritmo acelerado com um enredo  já conhecido dos telespectadores (Spotlight: Segredos Revelados estreou o ano passado com o mesmo tema), e com um elenco de luxo (Meryl Streep e Tom Hanks) . Uma história simples mas que Spielberg que também lista no seu cast o nome Janusz Kaminski como diretor de fotografia, quis – não ingenuamente – que o mundo se inquiete com o presidente Donald Trump. E que o jornalismo faça o seu contraditório, e assim, o escrutínio da democracia não esmoreça.

5a1ca2f724ee6-868x644

Standard
Literatura, livros

Correntes d’Escrita e a pintura de Bosch

IMG_20180223_110245

O músico, ilustrador e escritor português Afonso Cruz levou na passada sexta-feira o pintor Bosch à sua mesa (número 5) no Correntes d’Escrita. O mote para a conversa estava no programa: ‘O que escrevo atormenta o que sou’. No painel estavam presentes a escritora cubana Karla Suarez, os portugueses João Tordo, Sandro William Junqueira e Lopito Feijóo em representação do escritor angolano Helder Simbad, que por “razões burocráticas” não pode estar presente na 19ª edição do certame literário, na Póvoa de Varzim.

Afonso Cruz contraria a ideia da dor no ato de escrever. “Adoro escrever, tenho prazer em escrever e se não tivesse não escreveria, o que não quer dizer que por vezes não me magoe”, confessa o escritor, passando a sua palavra a uma mostra de slides, em que analisa uma pintura do pintor holandês do século XV. No quadro surge a figura de Jesus Cristo rodeado de dois homens a ampará-lo. Um destes homens tem no chapéu uma folha de carvalho. Afonso Cruz compara o desenho do carvalho à forma do cerebelo humano e conclui, perguntando: “Será que Deus na verdade está a dizer-nos que está na cabeça e é nela que reside o nosso sofrimento?”.

O laureado com o prémio da União Europeia para a Literatura deu exemplos de escritores que partilharam dores literárias, como Flaubert que tomava as dores da sua conhecida personagem Madame Bovary.

Já João Tordo, escritor que venceu o prémio Saramago em 2009, partilhou com o público que encontrou refúgio na escrita para evitar a comunicação oral, “dificil” para a sua “gaguez”. O escritor português mostrou uma série de histórias sobre monstros e BD’s que escreveu quando tinha apenas sete anos. A ideia era demonstrar como “nasceu” para o escritor “a literatura”.

Karla Suarez leu um longo texto na sua língua mãe e explicou que “escrever é um verdadeiro ato de exorcismo”, cujo final é atingir o leitor, ou “o leitor acaba por ser os próprios olhos”.

Standard
ser humano

casa

casa

ca·sa 
(latim casa-aecabanacasebre)

substantivo feminino

1. Nome genérico de todas as construções destinadas a habitação.

Casa, o lugar onde nos sentimos seguros. O sítio onde guardamos todos os dias as tralhas de cada dia. O lugar onde recolhemos com a sinceridade da lágrima e do riso. O espaço onde encontramos o abraço certo, onde nos despimos de máscaras e podemos dançar sem passos decorados a nossa personalidade.
Em casa dispomos a mobília como queremos, de acordo com o o nosso gosto. Lá realizamos todas as necessidades.
A casa de um homem é o seu castelo dizia Edward Coke, político inglês do século XVII.
Basta em algum canto a cor de uma laranja, uma moldura para visitar uma memória, e um agasalho para a ocasião, e mesmo a céu aberto construir uma casa, mesmo que fugindo do seu significado.
Standard