Cinema

O cinema que conta a história do cinema

cinema (Foto: Rui Pedro Rangel)

Ir ao cinema é para mim um paraíso. Hoje em dia visito pouco as salas de cinema por causa das responsabilidades familiares – com dois filhos é difícil acompanhar cartazes a par com o meu marido. Seja como for, sempre que organizamos a casa conseguimos beijar a grande tela com os olhos.

Esta semana fomos embalados pelo delicioso e histórico Cinema Paradiso no maravilhoso cinema Trindade – que dure para (o meu) sempre.

O filme Cinema Paradiso é o cinema a contar a história do cinema na língua e em linguagem italiana. Um rapaz, Totó, faz uma amizade para a vida com Alfredo. Alfredo tem a função de entreter uma pequena vila italiana.

Guiseppe Tornatore é o responsável por dirigir tal filme encantador de 1990.

A narrativa é simples, e o que é menos é mais, já a minha mãe me ensinou: Totó (Salvatore Cascio), cujo grande amigo Alfredo é o projeccionista do cinema, cria as suas fantasias infantis que vão de Bergman a Chaplin. Inicialmente com semblante durão, Alfredo cede espaço para os encantos do menino. Torna-se, inclusive, o seu herói.

Há um incêndio que destrói o edifício do cinema paradiso e Totó precisa assumir a frente das projeções, com tudo o que aprendeu com Alfredo. A paixão anteriormente amadora torna-se remunerada. A relação problemática com a mãe também muda, pois esta passa a respeitar mais o ofício do filho. Totó apaixona-se arduamente por Elena, filha de um banqueiro que a muda de cidade. Depois da desilusão amorosa, Totó deixa a vila e vai para Roma, retornando 30 anos depois, com a morte de Alfredo.

O Cinema Paradiso é um hino ao excelente trabalho de cenografia e montagem. A direção de arte ganha bastante com a concepção do espaço de exibição de filmes, uma típica sala de cinema nos moldes dos cinemas de rua, espaço alcançado por poucos membros da geração cinéfila contemporânea. É todo um processo ao ritmo poético nas cenas, numa espécie de cinema de poesia, na forma como a montagem intercala cenas de outros filmes que marcaram a história do cinema, juntamente com a trajetória de Salvatore.

O figurino, sob a responsabilidade de Beatrice Bordone, assume o caráter humilde do período, além da fotografia eficiente de Blasci Fiurato. Em suma, uma equipa competente e comprometida, bem envolvida com o diretor. O som é um deleite. A música composta por Ennio Moricone, parceiro em outras investidas do diretor, é quase uma sessão de meditação. As situações de Cinema Paradiso parecem uma adaptação cinematográfica das nossas vidas.

 

 

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Cinema, Jornalismo

The Post e o resgate da pureza no jornalismo

1966. Uma série de documentos conhecidos como “Pentagon papers” são copiados por um homem presumível assessor que acompanha o presidente Nixon e o seu executivo no tema sobre a presença americana na guerra no Vietname. Dan passa a ter em sua posse os mais altos segredos de Estado.

1971. Há já oito anos Kat Graham dirige o The Washington Post, uma herança do marido que havia se suicidado. Mrs. Graham passa a imagem de uma mulher vulnerável no que toca a decisões difíceis, com fraca comunicação com os seus interlocutores, homens no negócio.

O espaço do filme The Post é a redação do The Washington Post, onde a personagem Ben Bradlee ganha vida. O editor-executivo escolhido por Kat mostra o mais elevado ícone do jornalismo: a liberdade de imprensa.

O recente filme de Steven Spielberg, nomeado para as categorias de melhor filme e de melhor atriz para os óscares 2018, alicia a quem vê como funcionam as malhas do jornalista com as fontes, e o frenesim de uma redação empenhada em fazer jus à democracia através de um jornalismo puro e duro.

Kat Graham toma a difícil decisão de publicar os “Pentagon papers” impulsionando o seu jornal local, mas arriscando pena de prisão. O concorrente The New York Times já havia publicado alguns desses documentos e viu o próprio jornal suspenso pelo tribunal.

É um filme que segue a ritmo acelerado com um enredo  já conhecido dos telespectadores (Spotlight: Segredos Revelados estreou o ano passado com o mesmo tema), e com um elenco de luxo (Meryl Streep e Tom Hanks) . Uma história simples mas que Spielberg que também lista no seu cast o nome Janusz Kaminski como diretor de fotografia, quis – não ingenuamente – que o mundo se inquiete com o presidente Donald Trump. E que o jornalismo faça o seu contraditório, e assim, o escrutínio da democracia não esmoreça.

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Frio, ser humano

A solidão é a perfeita companheira da morte

A solidão é a perfeita companheira da morte. Um homem, português, novo, talentoso, longe do aconchego da cultura, da família, dos amigos; morre só, ao frio, lá longe, na terra desprovida do adusto da vida – Londres.

Em 2018, às portas do parlamento britânico, um emigrante português, um ser humano, perdeu a vida na própria casa. Era sem-abrigo, a sua casa era a estação de metro de Westminster. É uma casa sem cozinha, sem sala, sem quarto, sem casa de banho. Com muita gente a passar. Só a passar, sem ver. Muita gente, demasiada gente, que passa e não olha, que passa e não vê, que passa e não repara.

A nossa Humanidade diminui, sentimo-nos pequenos, impotentes. A conversa regressa ao princípio, regressa à mesma pergunta: onde é que estamos a falhar? Com os políticos, os primeiros, supostamente a ter que dar o exemplo, os últimos a agir. Jeremy Corbyn, líder do partido Trabalhista inglês, surge a lamentar que os deputados nada puderam fazer, e a varrer o assunto com flores para dentro da estação, onde morreu uma pessoa, sozinha, à procura de trabalho, ao frio, numa cidade gigante, com tanta a gente a passar e a não ver, a não olhar, a não reparar.

Até quando? De acordo com associações e amigos este sem-abrigo, português, estava inscrito no centro de emprego, à procura de trabalho, já tinha trabalhado, perdeu o trabalho. Ficou a zero perante o empreendimento que é a vida.

Até quando?

Onde estamos a falhar?

Os governantes, os responsáveis máximos são obrigados a responderem a estas perguntas. A fazer mais. A não varrer flores para onde quer que seja. Estão obrigados pôr em prática ações para dar vida à vida de todos os cidadãos.

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Poesia

O telúrico Torga

Escrevo hoje sobre o dia de ontem.

Ontem fez 23 anos que o poeta português Miguel Torga morreu.

Miguel Torga fez parte do meu currículo de português do 12º ano. Fazia parte da trilogia dos poetas da natureza: Sophia, Eugénio e Miguel.

É considerado um poeta telúrico cujos poetas ganham raízes na terra, são poemas frescos, construídos com palavras ligadas à natureza.

Este é dos meus poemas preferidos e que me deram de presente juntamente com o meu diploma precisamente do 12º ano.

Vamos recordá-lo:

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Media, ser humano, Teatro

Não há teatro de inclusão. Há teatro.

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[Fonte fotografia: APPC]

É mais uma quarta-feira de ensaio, só que hoje não há ensaio. No teatro ensaia-se mas também trata-se de logística, e é preciso preparar o ano e a agenda. O telefone toca: “Não há cache, mas pagam o transporte e a comida”. Mónica Cunha, de 47 anos está há 20 no grupo de teatro Era uma vez da APPC – Associação do Porto de Paralisia Cerebral. Ela ensaia, orienta a equipa, cuida de tarefas como marcação dos espectáculos, faz muito por todos.

Estão a marcar o espectáculo para irem a Estarreja. Mónica recusa-se a falar em teatro inclusivo. “Teatro é teatro, nele representa-se”, defende. A técnica de Mónica, como frisa, é a “igualdade”.

O Era uma vez é composto por 14 elementos, Henrique é o mais velho na companhia. Diz que há 20 anos não se via muito público na plateia, hoje em dia “já se vê mais qualquer coisa”.

Este ano vão estrear o Epidemia Urbana, em Julho, no Porto. A peça foi criada a partir do Ensaio Sobre a Cegueira do Nobel português, José Saramago. O grupo conta com uma motivação exacerbada que os leva a ultrapassar os limites e que estes fiquem adormecidos pela imaginação.

O processo criativo do grupo começa com diferentes leituras por cada um até chegar à escrita de cada cena, e por fim, do guião final. Aceitam qualquer desafio que seja bom. Por exemplo, ressuscitam textos de William Shakespeare. Ensaiam todos os dias, porque, como diz Mónica, “isto é um trabalho e nós levamos a sério o que gostamos de fazer”.


Para saber mais sobre a companhia e agenda de espectáculos: http://www.appc/eraumavez.pt

O Era uma vez organiza um casting a 26 de Janeiro. Aparece, é aberto a toda a comunidade!

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Crónica, Media, ser humano, solidariedade

Dar voz às realmente raríssimas

Vamos deslindar sentimentos.

Vamos separar águas.

Vamos superar a fúria.

Exercícios difíceis para quem se deparou com a vergonha do desvio de dinheiro público e donativos na raríssimas. De uma associação, ainda para mais designada IPSS, espera-se seriedade, trabalho, muita responsabilidade, muito empenho, sobretudo, muito respeito pelas pessoas, que em dificuldade, dependem da instituição.

Como em tudo na vida, existem profissionais bons e maus, colegas bons e maus, pessoas boas e más. Existem IPSS boas e más. Urge o desafiante exercício de saber em quem confiar, onde depositar o sacrifício do voluntariado e do donativo.

Ponhamos em prática a frase batida: não julgar o todo pela parte.

Abençoado jornalismo, ainda vivo, ainda a respirar que deu a conhecer à sociedade civil o escândalo ‘raríssimas’, longe de estar concluído, e não sejamos ingénuos: a ponta do icebergue do que existe por aí.

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Arte|Exposições

Rostos centenários no Bolhão

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Ontem esbarrei nestes rostos centenários na estação de metro do Bolhão. Uma exposição que reúne cerca de 20 caras que ultrapassaram um século de vida, oriundas de todo o país. A colecção pertence ao fotógrafo Marco Garcia que contou com o apoio da Universidade do Porto e do Porto4Ageing, Centro de Excelência em Envelhecimento Ativo e pela câmara do Porto. De acordo com o portal Notícias Universidade do Porto o último censos nacional realizado em 2011 contou 1526 cidadãos com idade superior a 100 anos. Um número muito superior ao contabilizado no censos de 2001: 589 pessoas com 100 anos de vida.

 

 

 

 

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