O pedido

Todos os dias há um pedido. Uma cara anónima que encontra no meu olhar o conforto suficiente para pedir o pão, uma moeda, as fraldas do bebé, uma sopa. Primeiro desconfiamos, julgamos o aspeto, o cheiro, se fala verdade, se fala mentira. Ficamos perdidos a boiar na mente escura: ‘ajudo, não ajudo’.’ Onde estão os que devem ajudar, o Estado?’ Depois chega a filosofia, a consciência:’ amanhã posso ser eu, posso precisar de ajuda’. Quem disse: um homem só deve levar a mão a outro se for para ajudar?

Sempre um pedido. Uma moeda que se pede. Uma mão que se estende. Na rua. No metro. Hoje essa mão veio de um senhor de idade para lá dos 60 anos. Homem asseado, eloquente, cabelo branco, pele limpa. Mas. Mas com os olhos envidraçados, a brilhar, a estender a mão, à procura de uma moeda que o ajudasse. Que o salvasse. Porque ‘era o comer, era a botija de gás’.

Da boca saíram-lhe um rol de males. Que vem desde trás. ‘O divórcio, o diabetes, os ossos, a construção civil, amputação dos dedos, o comer que tinha que ser especial – os diabetes’, dizia.

Dizia ainda: ‘a reforma por invalidez que chegou tarde, o dinheiro da reforma por invalidez que demora a chegar’.

A Segurança Social? ‘Meteram-me numa instituição para toxicodependentes. Não me adaptei aquele ambiente, pedia à doutora para me tirar de lá, estava a ficar com a saúde pior. É melhor a garagem de um amigo’.

O centro de Saúde? ‘Gasto muito em medicação’. Passo dias nos hospitais’.

Sou uma centelha. Não passo disto no mundo. Podia fazer mais, mas também podia fazer menos. Não fui em nenhuma missão, não faço parte do grupo de corajosos que dão a vida na Síria para resgatar inocentes ao Daesh. Sou pequena, por isso, decidi meter-me nesta missão invisível e pequena de responder aos pedidos. Para sim ou para não. Mas responder. À minha proporção.

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Uma horta no metro. Uma vida.

Uma horta entrou na minha viagem de metro no último fim-de-semana. Uma horta de hortaliça, nabos, cenouras, batatas.

Todos os legumes enfiados num  saco reciclável mas a espreitar cá para fora, curiosos, a respirar. Quem os transportava era uma senhora de cara gasta pelo tempo. Adivinho que o marido já terá partido.

A mulher arranja lugar para ela e para a horta ambulante. Imagino a vida dela:

o dia a desmascarar-lhe a cara, o pão seco que come ao pequeno-almoço, as migalhas que ficam na mesa, enquanto faz a cama, varre o pátio, amanha o peixe do almoço. vai longe buscar os legumes para a sopa, onde ninguém a  conhece. assim, pode instalar-se num banco à porta de casa e vender os legumes que sobram. assim, pode comprar o pão do dia seguinte, amanhar o peixe da próxima refeição. 

Imagino:

tem três filhos. um nos estados unidos, outro em lisboa e outro que se esqueceu de onde veio. de vez em vez recebe um ou outro telefonema dos filhos. dá duas de letra com a vizinha da porta ao lado. toma café para esfregar menos o olho, e só lava duas vezes o cabelo por semana. 

Continuo:

tem muita tralha de roupa no único quarto de casa, mas usa sempre a mesma camisola de malha preta, já com um buraco, cosido todas as vezes que quer falar. recebe cartas: da luz e da água. e à noite encosta o olho à televisão enquanto sorve a sopa quente. e todas as vezes que se arrasta até à cama solta um ai. não para se lamentar, mas para se fazer ouvir. 

Parei de imaginar. Tenho a sensação de estar a tocar a verdade.

O sol pinga nas janelas sujas do metro

O sol pinga nas janelas sujas do metro. É Páscoa deviam esfregar isto tudo. Vai a bailar a empregada de limpeza com o balde numa mão e a esfregona na outra, agarrada ao varão, e os olhos agarrados ao vidro fosco em jeito de pegada de um inverno que passou. É Páscoa deviam esfregar isto tudo. Reitera a mulher com o olhar escorrido e o profissionalismo que lhe foi ensinado desde sempre e para sempre. Fala alto à espera de consentimento por parte de quem não entende de vidros foscos, e quem anseia apenas pelo feriado, que é o que a Páscoa tem a ver e não É Páscoa deviam esfregar isto tudo.

Quem tem o coração perto da boca faz dos outros ouvidos-moucos.

Ela bate na mesma tecla. E o resto dos passageiros à procura de significado naquelas palavras, nada dizem. Isso ou apenas falta de coragem. Quem tem o coração perto da boca faz dos outros ouvidos-moucos.

É Páscoa e os vidros caminham foscos. À espera que alguém se dê conta da necessidade de Renascimento em dias tão adormecidos.

A cusquice dos olhos no jornal do vizinho

Gosto muito da cusquice dos olhos no livro, jornal, telemóvel ou computador do vizinho do lado.

É inevitável. Sentámo-nos e se o vizinho do lado estiver agarrado a qualquer um daqueles objetos, os nosso olhos ganham personalidade coscuvilheira. Curiosidade, interesse, cusquice? Não sei. Se enfiámos as mãos no colo, se o lado da janela está ocupado, para onde se dirigem os olhos? Para aquela página do jornal que contornamos até poder ler o título todo, numa espécie de coreografia que ganha velocidade à medida que a pessoa na posse do jornal se apercebe, e faz de tudo para nos dificultar a tarefa.

E nós versus eles, enterramos ainda mais os olhos, ao desafio, e neste ponto, de um zás brusco, pumbas, o vizinho muda a página, a mostrar mau génio. Pior: fecha-o, guarda-o. Como quem diz: este jornal é todo meu, se quiseres compra o teu.

Se enfiámos as mãos no colo, se o lado da janela está ocupado, para onde se dirigem os olhos? Para aquela página do jornal que contornamos até poder ler o título todo, numa espécie de coreografia que ganha velocidade à medida que a pessoa na posse do jornal se apercebe, e faz de tudo para nos dificultar a tarefa.

Da alegria

Se queres ser alegre, faz uma viagem de metro. A senhora do lado muito espevitada, sorri de uma orelha á outra. Tem uma amiga que condiz com a alegria dela. É impossível dormir na primeira hora do dia, no aconchego do banco no metro.

o que é preciso é alegria e força no pau

O quê? Parou tudo!
Acordámos todos, assim, em sobressalto. Aquilo não foi uma frase, foi um comprimido esctasy no ouvido. Pow. Logo de manhã, quando ainda estamos como os gatos a lamber os olhos. Espero encontrá-las novamente. Porque gente boa sorri. E faz sorrir.

 

alegria

No desgaste do dia

Há uma pequena que me fita o olho já no desgaste do dia. Será que me tenta adivinhar os sonhos? Eu tento adivinhar os dela. Quer ser mãe e ter filhos, muitos – quando crescer. Depois quer ser médica, ao mesmo tempo de cantora, claro. Quer correr o mundo com o apaixonado, as amigas, e os filhos. Quer crescer e ver os pais sempre no mesmo lugar – nem mais novos, nem mais velhos.

Possivelmente, a garota de fita à roda da cabeça já me acha crescida o suficiente para ter todos os sonhos dela e mais alguns. Conto-lhe a verdade? Que a vida é longa, mas também curta para somar sonhos. Todos, pelo menos. Que um ou outro andaram perto, que um se realizou que até parece mentira, e uns quantos andam aos caídos em agendas, em pontos de ‘cheklist’ à espera de visto de concretização? Que existe tanta coisa fora do nosso controlo que sabemos na realidade da idade que não vão sair do papel?

Esta realidade  que contrasta com a inocência dos olhos da menina que me fita…já no desgaste do dia…a contrastar com o desgaste dos anos.

O som que o metro faz ao chegar

O Porto foi considerado, uma vez mais, o melhor destino europeu, e o sol regressou ao céu, em esplendor. A acompanhar a farra destes dias que eleva o sentimento tripeiro assiste-se à mudança de humor nas pessoas que levam a vida pelo metro. Se antes, em tempo de chuva, as caras acabrunhadas passeavam-se em silêncio; hoje as portas do metro rangem novamente. Assim como, penso, os versos da Ana Luísa Amaral. ‘O som que os versos fazem ao abrir’, escreve a poeta. Quer-me parecer que o som será idêntico, de felicidade pardacenta. Como o Porto. Sempre na sombra de um sol deslumbrante, ‘a moer um sentimento’. Não é assim?