ser humano

A bengala que vê

Sou atraída pelo tac tac tac que a cega dá no chão da rua com a bengala que lhe serve de par de olhos. No rosto transporta uns olhos azuis, redondos, perdidos por todo o espaço.

“Precisa de ajuda?”. Pergunta injusta e desnecessária. Todos os olhos azuis, redondos, perdidos por todo o espaço, apoiados numa bengala carcomida, precisam de ajuda.

A voz da cega, cujo o nome, descobri-lhe mais tarde, é Susana, segura-se em mim.

“Sim, vou para a Batalha, leva-me até lá?”.

Nunca nos encontrámos, mas abraçamos os dois braços e seguimos juntas, estranhamente juntas, rua de Santa Catarina fora. A bengala é recolhida, e eu passo a ser o par de olhos da Susana.

Dez minutos sem me ver, a Susana via apenas a minha voz. Naqueles dez minutos, ao ouvir-me teve a certeza que eu parecia ter 22 anos, mas que era de certo mais velha e que “com certeza” já teria filhos.

Eu com os meus olhos azuis não lhe descobri nada. Teve de me desvendar o filho de 18 anos que orgulhosamente estuda medicina. “Ainda há pouco me ligou para perguntar como estava e para pedir ajuda”.

A Susana estava constantemente a desculpar-se pela ajuda. E eu constantemente a agradecer-lhe por poder ajudar.

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ser humano

casa

casa

ca·sa 
(latim casa-aecabanacasebre)

substantivo feminino

1. Nome genérico de todas as construções destinadas a habitação.

Casa, o lugar onde nos sentimos seguros. O sítio onde guardamos todos os dias as tralhas de cada dia. O lugar onde recolhemos com a sinceridade da lágrima e do riso. O espaço onde encontramos o abraço certo, onde nos despimos de máscaras e podemos dançar sem passos decorados a nossa personalidade.
Em casa dispomos a mobília como queremos, de acordo com o o nosso gosto. Lá realizamos todas as necessidades.
A casa de um homem é o seu castelo dizia Edward Coke, político inglês do século XVII.
Basta em algum canto a cor de uma laranja, uma moldura para visitar uma memória, e um agasalho para a ocasião, e mesmo a céu aberto construir uma casa, mesmo que fugindo do seu significado.
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ser humano

Assustadoramente dois enfermeiros

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Assustadoramente, dois enfermeiros. O trabalho de dois enfermeiros num único turno, ao qual se soma o trabalho de duas auxiliares para o serviço de ortopedia do Hospital de Santo António no Porto. Um serviço preenchido maioritariamente por pessoas idosas com a autonomia abalada, causada por quedas desajustadas à idade.

Contei uma, duas, três, quatro, cinco, seis, salas ou enfermarias, cada uma, com três camas, fora destas contas, ainda uma outra sala, que recebe oito camas com recepção do serviço incluído.

E assustadoramente: para mudar fraldas, lençóis, ajudar a dar a comida aos doentes, dar a medicação, subir cama e baixar cama, assustadoramente dois enfermeiros, duas auxiliares.

a s s u s t a d o r a m e n t e.

Este é o nosso SNS. Dois enfermeiros impecáveis, profissionais, atenciosos. Contudo, o sorriso largo e a agilidade de dois enfermeiros não suprime a necessidade gorda de cerca de 23 pacientes no corredor de um serviço tão exigente como é o de ortopedia.

A saúde só pode ser ‘saudável’ com a contratação e com recursos humanos suficientes e eficientes. Não é o caso. De todo.

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Media, ser humano, Teatro

Não há teatro de inclusão. Há teatro.

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[Fonte fotografia: APPC]

É mais uma quarta-feira de ensaio, só que hoje não há ensaio. No teatro ensaia-se mas também trata-se de logística, e é preciso preparar o ano e a agenda. O telefone toca: “Não há cache, mas pagam o transporte e a comida”. Mónica Cunha, de 47 anos está há 20 no grupo de teatro Era uma vez da APPC – Associação do Porto de Paralisia Cerebral. Ela ensaia, orienta a equipa, cuida de tarefas como marcação dos espectáculos, faz muito por todos.

Estão a marcar o espectáculo para irem a Estarreja. Mónica recusa-se a falar em teatro inclusivo. “Teatro é teatro, nele representa-se”, defende. A técnica de Mónica, como frisa, é a “igualdade”.

O Era uma vez é composto por 14 elementos, Henrique é o mais velho na companhia. Diz que há 20 anos não se via muito público na plateia, hoje em dia “já se vê mais qualquer coisa”.

Este ano vão estrear o Epidemia Urbana, em Julho, no Porto. A peça foi criada a partir do Ensaio Sobre a Cegueira do Nobel português, José Saramago. O grupo conta com uma motivação exacerbada que os leva a ultrapassar os limites e que estes fiquem adormecidos pela imaginação.

O processo criativo do grupo começa com diferentes leituras por cada um até chegar à escrita de cada cena, e por fim, do guião final. Aceitam qualquer desafio que seja bom. Por exemplo, ressuscitam textos de William Shakespeare. Ensaiam todos os dias, porque, como diz Mónica, “isto é um trabalho e nós levamos a sério o que gostamos de fazer”.


Para saber mais sobre a companhia e agenda de espectáculos: http://www.appc/eraumavez.pt

O Era uma vez organiza um casting a 26 de Janeiro. Aparece, é aberto a toda a comunidade!

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feminismo, Literatura, livros, mulher

“Ora, o leitor sabe muito bem que eu nunca tinha feito nenhuma promessa formal nem assumido compromissos”. O ténue feminismo de Bronte em 1847.

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Charlotte Bronte escreveu A Paixão de Jane Eyre em 1847. Foi o seu primeiro romance, adaptado diversas vezes ao grande e ao pequeno ecran. É uma obra esplêndida, um livro muito bem escrito, onde as palavras trazem imagens a ilustrar cada página.

Fiquei fascinada com o estilo vitoriano que não destoa nos dias de hoje. Uma cadência natural da história, e sobretudo, um feminismo à época pouco usual mas que está aligeirado em algumas linhas.

Jane uma mulher feia, maltratada na infância que soube colocar a vida nos trilhos que ela própria comanda. Dura nas suas opiniões e fiel ao seu espírito, mulher que foge de dependências e constrói a independência. É uma mulher insubmissa – o que acho admirável à época; descrever-se e escrever-se linhas com tais características numa mulher. Não sei se na ocasião se se chamaria feminismo, mas hoje, Jane poderia bem ser uma feminista a lutar pela igualdade de género.

O estilo vitoriano descobre-se não só pela época em que foi escrito o romance, mas na abordagem que a escritora faz ao leitor. Frequentemente dirige-se à audiência como se estivesse a contar a história num palco de teatro: caro leitor, o leitor sabe, etc. Isto aproxima sem dúvida o relato do leitor.

É uma espécie de conto de fadas. O relato é feito na primeira pessoa. A infância da personagem principal, Jane Eyre, é dura. Gata borralheira numa casa de madrastas. Logo, a vida encarreira Jane ao destino de Thornfield Hall onde conhece o seu príncipe encantado, Mr. Rochester, que igualmente feio, e mais velho vivem uma história a quebrar os padrões da sociedade da altura: apaixonam-se e decidem casar.

Eis que acontece aqui o desequilibro na narrativa: não podem casar por uma descoberta que exige uma reflexão sobre a moral. Não casam. Por enquanto.

A aventura continua.

Convido a folhearem as 530 páginas numa edição da Círculo de Leitores que arranjei numa livraria antiga na rua José Falcão no Porto. Na Penguim são 447 páginas. Procurem o livro e tirem o véu que cobre o romance. Vale a pena!

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Arte|Exposições

Rostos centenários no Bolhão

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Ontem esbarrei nestes rostos centenários na estação de metro do Bolhão. Uma exposição que reúne cerca de 20 caras que ultrapassaram um século de vida, oriundas de todo o país. A colecção pertence ao fotógrafo Marco Garcia que contou com o apoio da Universidade do Porto e do Porto4Ageing, Centro de Excelência em Envelhecimento Ativo e pela câmara do Porto. De acordo com o portal Notícias Universidade do Porto o último censos nacional realizado em 2011 contou 1526 cidadãos com idade superior a 100 anos. Um número muito superior ao contabilizado no censos de 2001: 589 pessoas com 100 anos de vida.

 

 

 

 

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Teatro

Fila J

Teoria 5S  estreia esta sexta-feita no Rivoli às 21:30. Quem não tiver oportunidade de ver a peça sexta, há a hipótese de sábado às 19:00. Ainda há lugares e o preço dos bilhetes é muito bonitinho. Esta teoria 5S é levada a cabo pela companhia de teatro Visões Úteis, e além, de entrarem em cena a Ana Vitorino, a Ana Luísa Rodrigues e o Carlos Costa, o Óscar Branco e o Jorge Paupério também se juntam à paródia que quer perceber até que ponto somos minimalistas.

Acima deixei link para o trabalho da TSF do programa Fila J que esta semana versou sobre esta teoria 5S.

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