ser humano, Media, Teatro

Não há teatro de inclusão. Há teatro.

lua e o sol.png

[Fonte fotografia: APPC]

É mais uma quarta-feira de ensaio, só que hoje não há ensaio. No teatro ensaia-se mas também trata-se de logística, e é preciso preparar o ano e a agenda. O telefone toca: “Não há cache, mas pagam o transporte e a comida”. Mónica Cunha, de 47 anos está há 20 no grupo de teatro Era uma vez da APPC – Associação do Porto de Paralisia Cerebral. Ela ensaia, orienta a equipa, cuida de tarefas como marcação dos espectáculos, faz muito por todos.

Estão a marcar o espectáculo para irem a Estarreja. Mónica recusa-se a falar em teatro inclusivo. “Teatro é teatro, nele representa-se”, defende. A técnica de Mónica, como frisa, é a “igualdade”.

O Era uma vez é composto por 14 elementos, Henrique é o mais velho na companhia. Diz que há 20 anos não se via muito público na plateia, hoje em dia “já se vê mais qualquer coisa”.

Este ano vão estrear o Epidemia Urbana, em Julho, no Porto. A peça foi criada a partir do Ensaio Sobre a Cegueira do Nobel português, José Saramago. O grupo conta com uma motivação exacerbada que os leva a ultrapassar os limites e que estes fiquem adormecidos pela imaginação.

O processo criativo do grupo começa com diferentes leituras por cada um até chegar à escrita de cada cena, e por fim, do guião final. Aceitam qualquer desafio que seja bom. Por exemplo, ressuscitam textos de William Shakespeare. Ensaiam todos os dias, porque, como diz Mónica, “isto é um trabalho e nós levamos a sério o que gostamos de fazer”.


Para saber mais sobre a companhia e agenda de espectáculos: http://www.appc/eraumavez.pt

O Era uma vez organiza um casting a 26 de Janeiro. Aparece, é aberto a toda a comunidade!

Anúncios
Standard
livros, mulher, feminismo, Literatura

“Ora, o leitor sabe muito bem que eu nunca tinha feito nenhuma promessa formal nem assumido compromissos”. O ténue feminismo de Bronte em 1847.

o-SR-ROCHESTER-E-JANE-EYRE-570.jpg

Charlotte Bronte escreveu A Paixão de Jane Eyre em 1847. Foi o seu primeiro romance, adaptado diversas vezes ao grande e ao pequeno ecran. É uma obra esplêndida, um livro muito bem escrito, onde as palavras trazem imagens a ilustrar cada página.

Fiquei fascinada com o estilo vitoriano que não destoa nos dias de hoje. Uma cadência natural da história, e sobretudo, um feminismo à época pouco usual mas que está aligeirado em algumas linhas.

Jane uma mulher feia, maltratada na infância que soube colocar a vida nos trilhos que ela própria comanda. Dura nas suas opiniões e fiel ao seu espírito, mulher que foge de dependências e constrói a independência. É uma mulher insubmissa – o que acho admirável à época; descrever-se e escrever-se linhas com tais características numa mulher. Não sei se na ocasião se se chamaria feminismo, mas hoje, Jane poderia bem ser uma feminista a lutar pela igualdade de género.

O estilo vitoriano descobre-se não só pela época em que foi escrito o romance, mas na abordagem que a escritora faz ao leitor. Frequentemente dirige-se à audiência como se estivesse a contar a história num palco de teatro: caro leitor, o leitor sabe, etc. Isto aproxima sem dúvida o relato do leitor.

É uma espécie de conto de fadas. O relato é feito na primeira pessoa. A infância da personagem principal, Jane Eyre, é dura. Gata borralheira numa casa de madrastas. Logo, a vida encarreira Jane ao destino de Thornfield Hall onde conhece o seu príncipe encantado, Mr. Rochester, que igualmente feio, e mais velho vivem uma história a quebrar os padrões da sociedade da altura: apaixonam-se e decidem casar.

Eis que acontece aqui o desequilibro na narrativa: não podem casar por uma descoberta que exige uma reflexão sobre a moral. Não casam. Por enquanto.

A aventura continua.

Convido a folhearem as 530 páginas numa edição da Círculo de Leitores que arranjei numa livraria antiga na rua José Falcão no Porto. Na Penguim são 447 páginas. Procurem o livro e tirem o véu que cobre o romance. Vale a pena!

Standard
Arte|Exposições

Rostos centenários no Bolhão

24232121_10159660141200187_1262769910388657027_n

Ontem esbarrei nestes rostos centenários na estação de metro do Bolhão. Uma exposição que reúne cerca de 20 caras que ultrapassaram um século de vida, oriundas de todo o país. A colecção pertence ao fotógrafo Marco Garcia que contou com o apoio da Universidade do Porto e do Porto4Ageing, Centro de Excelência em Envelhecimento Ativo e pela câmara do Porto. De acordo com o portal Notícias Universidade do Porto o último censos nacional realizado em 2011 contou 1526 cidadãos com idade superior a 100 anos. Um número muito superior ao contabilizado no censos de 2001: 589 pessoas com 100 anos de vida.

 

 

 

 

Standard
Teatro

Fila J

Teoria 5S  estreia esta sexta-feita no Rivoli às 21:30. Quem não tiver oportunidade de ver a peça sexta, há a hipótese de sábado às 19:00. Ainda há lugares e o preço dos bilhetes é muito bonitinho. Esta teoria 5S é levada a cabo pela companhia de teatro Visões Úteis, e além, de entrarem em cena a Ana Vitorino, a Ana Luísa Rodrigues e o Carlos Costa, o Óscar Branco e o Jorge Paupério também se juntam à paródia que quer perceber até que ponto somos minimalistas.

Acima deixei link para o trabalho da TSF do programa Fila J que esta semana versou sobre esta teoria 5S.

Standard
Sem categoria

22688776_10159508973035187_9062648148057423306_n

Gosto muito de deduzir histórias sobre as imagens que vejo, fotografo. Como escreveu Roland Barthes na sua Câmara Clara:”O que a fotografia reproduz ao infinito só ocorreu uma vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente”.  É como todos aqueles objectos encarcerados num antiquário. Já passaram do tempo deles, mas ficaram. Parecem pedinchar por uma segunda oportunidade. Que estórias contarão estas coisas encafuadas numa loja da baixa do Porto? Quem as procurará? Por que estarão elas ali?

Continuar a ler

Standard
feminismo, mulher, ser humano

Indignação sobre o acórdão machista

22552426_1902721216644978_6597095432020183118_n

Fomos surpreendidos pelo acórdão de um juiz do Tribunal da Relação do Porto que iliba um homem de violência doméstica, justificada pelo adultério da mulher. Lê-se no processo: “O adultério da mulher é uma tentado à honra e dignidade do homem”. O tribunal considera “compreensível” a violência por parte do homem que foi “vexado” e “humilhado” pela mulher adúltera. Mais: o juiz vai buscar a punição moral descrita na Bíblia para pregar o seu ralhete à mulher vítima de violência doméstica.

A indignação é geral e a UMAR – União das Mulheres Alternativa e Resposta – não perdeu tempo a culpabilizar juristas responsáveis pelas vidas das pessoas que por serem retrógradas e moralistas contribuem para a evolução negativa das sociedades.

Tudo naquele documento do tribunal é aberrante: culpabilizar a mulher adúltera, justificar a violência, ir buscar o moralismo da Bíblia e o Código Penal de 1886.

Quando pensámos que ultrapassámos as piores atrocidades do mundo feminino, ainda é preciso ser ainda mais feminista, elevar mais a voz, porque, o machado está lá, pronto a ser utilizado, por qualquer um, pior: por aquele que deveria proteger e não julgar ao desproteger.

Standard
criança, pessoas&crianças, ser humano

su(de)ficiente

21371132_10159315871845187_8735567985232422466_n

Termina hoje a celebração da semana de alimentação saudável na escola da minha filha, a Maria Rita (na foto). O objectivo além de promover a alimentação saudável era angariar fundos para desenvolver e apetrechar a sala do ensino especial.

A Rita manifesta muito interesse em ajudar, dar a mão aos meninos que fazem parte deste ensino especial e que merecem ‘especial’ atenção. Eu fico feliz com as iniciativas dela.

Não deixo de corrigir sempre que ela diz, como a escola ensina: “hoje ajudei o menino especial. Especial somos todos, insisto. Penso que devemos tratar ‘os bois pelos nomes’. Se existe uma incapacidade, uma insuficiência, dizemos deficiente.

A Rita deixou o especial para lá, e agora diz: os meninos suficientes. É mesmo isso, suficientes. Aqui fui incapaz de corrigir. Somos suficientes na nossa condição.

Como diria Clarice Lispector num verso: E se me achar esquisita,
respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.

Standard