Sem categoria

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Gosto muito de deduzir histórias sobre as imagens que vejo, fotografo. Como escreveu Roland Barthes na sua Câmara Clara:”O que a fotografia reproduz ao infinito só ocorreu uma vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente”.  É como todos aqueles objectos encarcerados num antiquário. Já passaram do tempo deles, mas ficaram. Parecem pedinchar por uma segunda oportunidade. Que estórias contarão estas coisas encafuadas numa loja da baixa do Porto? Quem as procurará? Por que estarão elas ali?

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feminismo, mulher, ser humano

Indignação sobre o acórdão machista

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Fomos surpreendidos pelo acórdão de um juiz do Tribunal da Relação do Porto que iliba um homem de violência doméstica, justificada pelo adultério da mulher. Lê-se no processo: “O adultério da mulher é uma tentado à honra e dignidade do homem”. O tribunal considera “compreensível” a violência por parte do homem que foi “vexado” e “humilhado” pela mulher adúltera. Mais: o juiz vai buscar a punição moral descrita na Bíblia para pregar o seu ralhete à mulher vítima de violência doméstica.

A indignação é geral e a UMAR – União das Mulheres Alternativa e Resposta – não perdeu tempo a culpabilizar juristas responsáveis pelas vidas das pessoas que por serem retrógradas e moralistas contribuem para a evolução negativa das sociedades.

Tudo naquele documento do tribunal é aberrante: culpabilizar a mulher adúltera, justificar a violência, ir buscar o moralismo da Bíblia e o Código Penal de 1886.

Quando pensámos que ultrapassámos as piores atrocidades do mundo feminino, ainda é preciso ser ainda mais feminista, elevar mais a voz, porque, o machado está lá, pronto a ser utilizado, por qualquer um, pior: por aquele que deveria proteger e não julgar ao desproteger.

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criança, pessoas&crianças, ser humano

su(de)ficiente

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Termina hoje a celebração da semana de alimentação saudável na escola da minha filha, a Maria Rita (na foto). O objectivo além de promover a alimentação saudável era angariar fundos para desenvolver e apetrechar a sala do ensino especial.

A Rita manifesta muito interesse em ajudar, dar a mão aos meninos que fazem parte deste ensino especial e que merecem ‘especial’ atenção. Eu fico feliz com as iniciativas dela.

Não deixo de corrigir sempre que ela diz, como a escola ensina: “hoje ajudei o menino especial. Especial somos todos, insisto. Penso que devemos tratar ‘os bois pelos nomes’. Se existe uma incapacidade, uma insuficiência, dizemos deficiente.

A Rita deixou o especial para lá, e agora diz: os meninos suficientes. É mesmo isso, suficientes. Aqui fui incapaz de corrigir. Somos suficientes na nossa condição.

Como diria Clarice Lispector num verso: E se me achar esquisita,
respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.

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gente do porto, melhor destino europeu

Elis, o Porto, o Progresso

O progresso do futuro começa, muitas vezes, lá trás no passado. O cinema antigo foi resgatado no Porto. É um exemplo em que o progresso puxou rotinas antigas da cidade.

Existem muitos filmes em exibição no cinema dos grandes centros comerciais. Mas, aproveitando o cartão tripass e ajudando à manutenção da excelente iniciativa de oferecer (novamente) os cinemas Trindade e Passos Manuel ao Porto, fomos espreitar a vida e obra da pequena grande Elis ao Trindade.

Uma estória na tela muito bem contada por Hugo Prata e um acrescento à nossa sabedoria. Almas arrojadas têm vidas tão curtas quanto intensas.

O que me trouxe a este post não é tanto o filme da Elis que merece um texto só dele, mas o progresso do café Progresso.

O filme terminou cedo, deu para uma volta no centro da cidade, a coscuvilhar o belo que a cidade se transformou – cheia de gente, logo, cheia de vida. Uma ida ao café Progresso. O nome do café antigo parece que se reflectiu no seu espaço físico.

Funcionários internacionais, a arranhar um quase português, mobília nova, máquinas novas. ‘O café de saco’ mantém-se, exorta o funcionário. ‘E o chão’, exclama ainda.

E, nós, eu e o meu marido, alucinados com tanto progresso, absolutamente desnecessário. Nada contra a empregados novos, vindos de longe, sem a pátria portuguesa na língua – eu própria trabalhei lá fora a arranhar mal outra língua; não obstante, precisaria o Progresso de tanto progresso para acompanhar a Era Moderna deste Porto que se internacionalizou? Não me parece. O Porto ganhou espaços novos, muitos, trouxe cinema antigo à cidade, ganhou nova clientela e animou a antiga clientela. Tudo fixe. Os espaços antigos que sejam fiéis a si mesmo, têm lugar cativo.

A pergunta que fica: será que num futuro próximo o passado virá arrependido para um novo Progresso?

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ser humano

Imagem poética

as palavras foram esquecidas pelo chão. ninguém teve o vagar, o espaço, o tempo de lhes dar melhor destino do que o papelão. foram descuidadamente pousadas no chão, onde mijam os cães, onde rasteja o sol e a chuva. alguém depositou ali aquele pedaço de passado. penso que talvez o objectivo fosse apagar a sombra daquelas cartas escritas à mão com letra minuciosa, papel dobrado em três – segredo escancarado na luz do dia. uma imagem poética que me persegue o passo: que falarão aquelas cartas? que história contam? quem as protagoniza? também pensei: o que é lixo e o que não é lixo? ganhei vontade de visitar o meu espólio de cartas. como reagiria? será que as despacharia aproveitando o sopro do vento? ou deixá-las onde estão, no pó do passado?
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gente do porto, mulher

Uma horta no metro. Uma vida.

Uma horta entrou na minha viagem de metro no último fim-de-semana. Uma horta de hortaliça, nabos, cenouras, batatas.

Todos os legumes enfiados num  saco reciclável mas a espreitar cá para fora, curiosos, a respirar. Quem os transportava era uma senhora de cara gasta pelo tempo. Adivinho que o marido já terá partido.

A mulher arranja lugar para ela e para a horta ambulante. Imagino a vida dela:

o dia a desmascarar-lhe a cara, o pão seco que come ao pequeno-almoço, as migalhas que ficam na mesa, enquanto faz a cama, varre o pátio, amanha o peixe do almoço. vai longe buscar os legumes para a sopa, onde ninguém a  conhece. assim, pode instalar-se num banco à porta de casa e vender os legumes que sobram. assim, pode comprar o pão do dia seguinte, amanhar o peixe da próxima refeição. 

Imagino:

tem três filhos. um nos estados unidos, outro em lisboa e outro que se esqueceu de onde veio. de vez em vez recebe um ou outro telefonema dos filhos. dá duas de letra com a vizinha da porta ao lado. toma café para esfregar menos o olho, e só lava duas vezes o cabelo por semana. 

Continuo:

tem muita tralha de roupa no único quarto de casa, mas usa sempre a mesma camisola de malha preta, já com um buraco, cosido todas as vezes que quer falar. recebe cartas: da luz e da água. e à noite encosta o olho à televisão enquanto sorve a sopa quente. e todas as vezes que se arrasta até à cama solta um ai. não para se lamentar, mas para se fazer ouvir. 

Parei de imaginar. Tenho a sensação de estar a tocar a verdade.

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mulher, Páscoa, Sem categoria

O sol pinga nas janelas sujas do metro

O sol pinga nas janelas sujas do metro. É Páscoa deviam esfregar isto tudo. Vai a bailar a empregada de limpeza com o balde numa mão e a esfregona na outra, agarrada ao varão, e os olhos agarrados ao vidro fosco em jeito de pegada de um inverno que passou. É Páscoa deviam esfregar isto tudo. Reitera a mulher com o olhar escorrido e o profissionalismo que lhe foi ensinado desde sempre e para sempre. Fala alto à espera de consentimento por parte de quem não entende de vidros foscos, e quem anseia apenas pelo feriado, que é o que a Páscoa tem a ver e não É Páscoa deviam esfregar isto tudo.

Quem tem o coração perto da boca faz dos outros ouvidos-moucos.

Ela bate na mesma tecla. E o resto dos passageiros à procura de significado naquelas palavras, nada dizem. Isso ou apenas falta de coragem. Quem tem o coração perto da boca faz dos outros ouvidos-moucos.

É Páscoa e os vidros caminham foscos. À espera que alguém se dê conta da necessidade de Renascimento em dias tão adormecidos.

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